Precisamos ainda confessar os nossos pecados?

A verdade fundamental do evangelho é que nossos pecados foram perdoados e Deus não mais se lembra deles. Trata-se de um problema resolvido de uma vez por todas na cruz do Calvário pelo sangue do Cordeiro de Deus. Assim, por que um crente ainda deveria confessar os seus pecados? Esta é uma questão muito importante que me é feita frequentemente. Hoje eu gostaria de ajudá-lo a entender.

Livres da consciência de pecado  
Quando o Senhor Jesus foi crucificado, Ele derramou o seu sangue para lavar todos os nossos pecados. Depois de lavar os nossos pecados, Ele assentou-se à direita nas alturas (Hb 1.3). Se, depois de sermos salvos e purificados de nossos pecados, nós viermos a cometer pecado de novo, o sangue de Jesus lavará os nossos pecados novamente? O conceito natural é que, uma vez que pecamos, precisamos ser purificados novamente. Mas não existe tal ensino na Palavra de Deus. O sangue purifica os nossos pecados somente uma vez. Não existe repurificação de pecado no Novo Testamento. No Velho Testamento, no entanto, o pecado só era coberto por um ano. No dia da expiação, eles imolavam o sacrifício da expiação e os seus pecados eram cobertos por um ano.

Foi assim até o dia em que João Batista declarou no deserto da Judeia: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Anteriormente, o sangue de animais apenas cobria os pecados, mas agora o Cordeiro de Deus veio para removê-los completamente e de uma vez por todas. A lei era como um pagamento com cartão de crédito. Não era um pagamento real, mas apenas a promessa de que a conta seria paga no dia do vencimento. No dia em que o Senhor morreu no Calvário, a conta foi quitada.

O problema é que muitos ainda vivem como se estivessem no Velho Testamento. Na lei, havia a recordação dos pecados, mas agora que nossos pecados foram purificados de uma vez por todas não mais precisamos viver debaixo de consciência de pecados. O argumento do autor de Hebreus é que, se os sacrifícios da lei pudessem purificar os pecados de uma vez por todas, as pessoas não mais teriam consciência de pecado (Hb 10.2-3). Se os sacrifícios da lei tivessem poder de perdoar o pecado, a prova seria que as pessoas não teriam mais consciência de pecado. Mas a verdade é que o sacrifício os fazia ainda mais conscientes do pecado. Eles tinham consciência do pecado porque o sacrifício de animais apenas cobria os pecados, não os removia.

Hoje, o sacrifício de Jesus resolveu completamente a questão do pecado de uma vez por todas, então não precisamos viver debaixo de consciência de pecado. O autor de Hebreus diz que ser livre da consciência de pecado é o resultado natural do sacrifício perfeito do Calvário. A palavra “consciência” aqui significa “ter conhecimento, estar ciente”, não significa a consciência que acusa quando pecamos. Assim, na lei, eles faziam recordação do pecado, mas hoje fazemos recordação do perdão. Precisamos ter consciência de perdão, e não consciência de pecado. Consciência de pecado é lembrar-me constantentemente dos meus erros.

Lamentavelmente, muitos ainda vivem constantemente se lembrando dos pecados como se isso representasse um maior zelo diante de Deus. E há pregadores que acreditam que lembrar o povo do seu pecado é a sua obrigação ministerial. Mas isso é o oposto do ensino da Nova Aliança. Muitos crentes estão na Nova Aliança, mas vivem com a mentalidade do Velho Testamento. Estão todo o tempo conscientes de pecado, sempre se avaliando para ver se não têm feito nada errado, com o fim de serem aceitos por Deus. Quando compreendemos que a obra foi consumada, deixamos de ter consciência do pecado e passamos a ter consciência de perdão.

Quando você fica se lembrando dos seus pecados, você está dizendo com a sua ação que o sangue do Cordeiro de Deus não tirou o pecado definitivamente da sua vida. Mas a verdade está clara a partir do verso 10. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus. (Hb 10.10-12)

Quando você recebeu Jesus em sua vida, você foi aperfeiçoado para sempre. É exatamente isso que declara a Palavra de Deus. Você pode ter segurança de que todos os seus pecados já foram perdoados de uma vez por todas. Podemos dizer isso porque o texto de Hebreus afirma que Ele se assentou. Estar consciente de pecado depois que eles foram perdoados é como ficar se lembrando de uma dívida quitada como se ainda estivesse devendo.

Não consigo mais ter comunhão com ele. Cada vez que o vejo, eu o evito. Esta é a principal razão por que alguns não conseguem ter vida de oração. Eles evitam falar com Deus, pois sentem que estão em dívida com Ele. Até que o Paulo vem e me conta que o José pagou a minha dívida. Se eu duvidar que a dívida foi paga, continuarei com a amizade rompida com o João mesmo que não haja mais dívida nenhuma. O Senhor Jesus ofereceu a si próprio uma única vez como oferta por nossos pecados. Ele efetuou a redenção eterna uma vez por todas. O verso 2 declara que aqueles que foram purificados não têm mais consciência de pecado. O sacrifício propiciatório do Senhor não é apenas para os pecados do passado, mas também para todos os pecados do presente e do futuro.

O que fazer quando pecar?
Creio que está claro que um cristão não deve mais viver com consciência de pecado, sempre se olhando para ver se há algo errado, com o objetivo de agradar, de ser aceito por Deus. Nós vivemos em paz na presença do Senhor. Mas há uma questão agora: o que fazer se pecarmos novamente? Sabemos que todos os nossos pecados foram perdoados, mas o que fazer diante de Deus se cairmos novamente? Devemos ignorar o pecado? Creio que João nos dá a resposta.

Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (1 Jo 2.1-2). João diz claramente que um dos objetivos de um filho de Deus é não pecar. Não há necessidade de pecar. O pecado, porém, é um fato inabalável.

O fato de João chamar de filhinhos mostra que ele está falando dos que pertencem ao Senhor. Caso eles pequem, João diz que eles têm um advogado diante do Pai. Veja que não é diante do juiz, mas diante do Pai, pois é um assunto de família, de comunhão. O nosso advogado não nos defende dizendo que a tentação foi muito forte para os filhinhos suportarem, então eles não conseguiram lidar com ela, por isso caíram. O Senhor não diz que, por serem criancinhas, ainda não possuem muito conhecimento e por isso devem ser perdoados. Não é assim que Ele nos defende.

Ele nos defende dizendo que Ele é a propiciação pelos nossos pecados. A sua defesa está baseada na sua obra consumada. Esse sacrifício foi perfeito e inclui todos os pecados de todos os cristãos no tempo e no espaço. Quando esse sacrifício propiciatório é mostrado a Deus, Ele não tem como nos punir. Para com os pecadores, o Senhor é o salvador, mas para com os filhos, Ele é o advogado. Como Salvador, Ele consumou a obra da cruz, mas como advogado, Ele aplica a obra da cruz. Ele se tornou o nosso salvador muitos antes de arrependermos, crermos e virmos a Ele. Ele se tornou o nosso salvador quando nós ainda éramos pecadores (Rm 5.8). Da mesma forma, Ele não se torna o nosso advogado depois que arrependemos. Pelo contrário, Ele já é o nosso advogado mesmo quando estamos pecando.

João não diz que primeiro devemos nos arrepender e confessar o nosso pecado para que então o Senhor Jesus se torne o nosso advogado diante de Deus. No momento em que pecamos, naquele exato momento, o Senhor está nos defendendo, mostrando ao Pai a sua obra consumada na cruz. Dessa forma, o sangue do Senhor Jesus está continuamente purificando-nos de todo pecado. 1 João 1.9 diz que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”. No original, esse versículo nos diz que o sangue de Jesus está nos purificando continuamente de todo pecado. A Bíblia jamais nos mostra que o sangue de Jesus faz uma segunda obra de purificação; antes, ela nos mostra que o sangue nos purifica o tempo todo. Não há múltiplas purificações, apenas uma, definitiva e contínua.

A obra consumada na cruz é de uma vez por todas, mas a obra de purificação do sangue é contínua. Por que ela é contínua? Porque o Filho está continuamente apresentando a Deus a obra consumada. Não é uma repurificação, mas uma demonstração contínua a Deus de que Ele já morreu e todos os pecados foram tratados.

Confesse que já está perdoado por causa do sangue
O perdão dos nossos pecados está totalmente baseado no sangue de Jesus. A confissão de pecados não tem poder de apagar pecados. Mas por que precisamos confessar? Em primeiro lugar, João não disse que confissão é orar para que Deus perdoe os meus pecados. O que o apóstolo diz é que precisamos reconhecer o pecado e tratá-lo como pecado. Lembre-se de que você não é perdoado por causa da sua confissão. Se fosse assim, teríamos de ficar confessando pecados o tempo todo, o que seria muito estressante. Mas haverá momentos em que você sentirá um peso na sua consciência. Então, nesse momento, terá de confessar. Como fazemos isso? Apenas confesse que você reconhece que tal ato é pecado e também confesse que, pelo sangue do Senhor Jesus, você já foi perdoado.

Se fôssemos purificados pela confissão, teríamos de conhecer todos os pecados que cometemos. Não somos perdoados apenas dos pecados que conhecemos e percebemos em nós. O Senhor removeu cada um de nossos pecados pelo conhecimento que Ele tem de nós, e não baseado no nosso próprio conhecimento. Se o perdão dos pecados fosse somente para aqueles pecados que nós vemos e confessamos, o perdão seria muito limitado. Mas ele nos conheceu profundamente e nos perdoou completamente. Imagine que você tem um amigo que não vê há muitos anos. Num dia, ele aparece e lhe diz que ficou multimilionário. Como ele ama você, ele se dispõe a pagar as suas dívidas. Ele se senta com o seu tesoureiro e paga todos os seus débitos. Mais tarde, você pede ao tesoureiro para ver as dívidas que foram pagas e então percebe que possuía dívidas que nem sabia ou tinha ciência delas, mas mesmo assim seu amigo pagou tudo. Esta é exatamente a nossa história. Não sabemos o tamanho da nossa dívida, mas podemos ter certeza de que toda ela foi completamente quitada pelo Filho de Deus na cruz.

Não devemos pensar que os pecados que ignoramos são também ignorados por Deus. Não são. Numa ocasião, houve fome em Israel e Davi foi consultar ao Senhor por causa do problema, e o Senhor mostrou que a causa da seca era o pecado de Saul contra os gibeonitas (2 Sm 21.1). Davi não sabia daquele pecado, mas isso não significava que Deus havia se esquecido. Somente o sangue de Jesus pode remover o pecado. O tempo ou a ignorância não apagam o erro diante de Deus. É por isso que não é a confissão que nos lava do pecado, mas é o sangue de Jesus. Todavia, precisamos confessar os nossos pecados, pois esta é uma forma de Deus remover de nós a justiça própria. Precisamos chamar o pecado de pecado e reconhecer que ele ainda existe em nossa carne. Quando admitimos o pecado, humilhamo-nos diante de Deus e assim podemos ter comunhão com Ele.

O pecado compromete a comunhão com o Senhor
Em João 13, lemos sobre o dia em que o Senhor lavou os pés dos seus discípulos. Esse evento é muito importante porque ele nos ensina que, antes de termos comunhão com o Senhor à mesa, precisamos ainda ser purificados. O lavar os pés é algo fundamental, pois Jesus disse que, se não lavasse os pés de Pedro, não poderia haver comunhão entre eles (Jo 13.8). Portanto, o lavar os pés tem a ver com comunhão com Deus.

Sem o lavar dessa água, Jesus disse que não podemos ter parte com Ele. A água aqui é um símbolo da palavra de Deus. O Senhor disse que os discípulos estavam limpos pela palavra que Ele tinha falado (Ef 5.26; Jo 15.3).
Nós somos lavados pela água quando confessamos a palavra de Cristo. Assim, a confissão de pecado deve vir sempre com a confissão da palavra do evangelho.

Esse lavar os pés não é algo relacionado com a salvação. O Senhor não disse a Pedro: “Se eu não te levar, não tens parte em mim”. Mas Ele disse: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”. “Em mim” é uma expressão ligada à salvação, mas “comigo” está ligado à comunhão. Isso significa que, depois de salvos, ainda podemos ter problemas em nossa comunhão com Deus. O Senhor disse que quem já se banhou não precisa banhar-se novamente (Jo 13.8-10). Banhar-se aqui se refere à salvação. Nós já fomos lavados pelo sangue de Jesus, mas ainda necessitamos diariamente ser lavados pela água da Palavra.

O pecado não muda a nossa posição diante de Deus, mas ainda pode atrapalhar a comunhão. Precisamos ser lavados pela água. Assim, não é a confissão que nos lava do pecado, mas o sangue de Jesus. Pelo sangue, já nos banhamos, mas ainda há ocasiões em que precisamos lavar os nossos pés da sujeira do pecado. Se não lavamos os pés, o Senhor diz que não podemos ter comunhão com Ele.

Perguntas para compartilhar:
1- Por que é importante ter consciência de perdão?
2- Explique o motivo de não haver repurificação no Novo Testamento.