Pais ou patrões?

por Marcelo Almeida, pastor presidente da Videira – Igreja em Células

O apóstolo Paulo estabeleceu um tipo de relacionamento com sua equipe que ia muito além de um time de vendas. Ele se refere a um deles, Timóteo, como “verdadeiro filho”. Esta geração é uma geração sem pais, que não possui referenciais e nem conhece a noção de paternidade, por isso falta propósito. É papel da mãe alimentar. A mãe protege, acolhe e envolve o filho em um ambiente de amor. Entretanto, é o pai que dá propósito. Por isso, esta geração vive navegando num mar sem direção, correndo atrás de futilidades, de coisas que satisfazem apenas a sua fisiologia e ventre, sem nunca ter a percepção de que a grande questão da vida é bem mais profunda do que isso. Só alcançamos satisfação, significado e relevância quando encontramos propósito. E isso quem compartilha são verdadeiros pais espirituais. Quem dá norte, bússola, direção é um pai. Por isso, Deus nos chamou para sermos pais, e não patrões em sua casa.

Não podemos estragar para sempre os relacionamentos oferecendo a dinâmica errada de estar recrutando empregados descartáveis diante do menor problema. Ao vivermos isso, passamos a informação de que pessoas valem lixo. Diante de uma temporada de falta de resposta, serão todos descartados e deletados. Pessoas não são objetos, que, depois do uso, podem ser encostados. Nós líderes seremos cobrados por Deus se aplicarmos esse tipo de “liderança pragmática” sem compaixão e sem respeito pelas pessoas. Fico chocado quando vejo pessoas que responderam, serviram e entregaram-se por anos a fio serem sumariamente “decapitadas” por terem dado uma resposta menor do que certos irmãos esperavam. Avaliações implacáveis sobre quem esteve ali servindo fielmente por anos a fio. Diante de um pretenso “faro” de deslealdade, gente que esteve ali servindo por anos e anos é lançada no lixo. Fico imaginando Pedro e todos os discípulos do Senhor, o que seria deles, o que seria de nós se Jesus praticasse esse tipo nocivo e implacável de critérios? Não me admira que em ambientes assim haja mais crentes desviados fora da igreja do que dentro dela.

Às vezes, vejo em algumas obras gente ser defenestrada e mandada para o paredão de fuzilamento sem dó, sem temor e sem nenhum peso de consciência. Quem faz isso está em pecado contra o corpo e contra a igreja, especialmente quando estamos envolvidos em treinamento de líderes. O pior é que essa atitude e mensagem é passada a todos aqueles que estão na fila vendo as coisas acontecerem. A conclusão é: o que está acontecendo com aquele infeliz é exatamente o meu destino amanhã quando chegar a minha vez. Em relacionamentos nos quais as pessoas valem nada, elas são tratadas como empregados. Normalmente, tais empregados são apenas comunicados dos eventos, das metas e alvos. Filhos, por outro lado, são trazidos para perto, envolvidos, desafiados e inspirados. Filhos participam de todas as fases dos processos, enquanto empregados ficam na fila aguardando ser comunicados pela chefia. Quando eu fiz escola bíblica, o que me inspirava era a generosidade e o amor daqueles irmãos que nos discipulavam para o ministério. Em algumas escolas bíblicas de hoje, eu não duraria um dia sequer.

Ao treinarmos líderes, muitas vezes somos tentados a priorizar a disciplina em detrimento da inspiração. Se é assim, formaremos gente hipócrita, que, diante de nós, diz o que esperamos ouvir, vestem-se como exigimos ver, comportam-se como um bando de “anjos desinfetados”, mas por trás aprontam todas. Se priorizamos a disciplina, estaremos passando a mensagem de que vale mais a forma, a vestimenta, as aparências, o linguajar do que as realidades do Espírito. Eu jamais iria para uma escola bíblica que valoriza mais como eu dobro as minhas toalhas e arrumo as gavetas do que o meu relacionamento com Deus, o meu ouvir o Espírito Santo e o meu fluir nas coisas espirituais. Se nessa escola bíblica exige-se mais acerca do seu corte de cabelo do que sua habilidade de ver Cristo nas Escrituras, faça-me um favor: saia rápido daí. Essa gente não merece a sua entrega e dedicação!

O relacionamento que você tem com os irmãos da igreja é de patrão com empregados e subordinados? Sua forma de lidar com as pessoas é sempre de cobrança? Diante de metas não batidas, nós as desqualificamos diante dos demais membros da equipe? É assim que você faz? Alguns irmãos transformam o discipulado em algo cruel, duro, abusivo, porque se veem exatamente assim, como patrões. Um patrão não se importa com seus empregados, pois todos são substituíveis. O tom de cobranças e críticas abusivas é a normalidade. Não estou falando de falta de responsabilidade e compromisso com o bom funcionamento das coisas. A grande questão é: que tipo de vínculo nós estabelecemos em todos os níveis de liderança que temos dentro da igreja? Entre os diáconos, na liderança da equipe de louvor, entre os líderes de jovens, a Rede Kids, entre obreiros ou até entre discipuladores, pastoras e pastores? A relação é do patrão com um bando de idiotas úteis e descartáveis? Se alguém faz isso, não nos representa e está em pecado contra o corpo do Senhor.

O próprio Senhor defenderá seus filhos de gente abusiva assim. A mensagem que se passa é mais ou menos a seguinte: “Você está aqui para me servir; se falhar em alguma coisa, tem muita gente na fila esperando por oportunidade! Não quer do meu jeito? A porta da rua está aberta, pode ir embora, pois há muita gente aguardando a vez!” Esse tipo de coisa deve nos encher de indignação e zelo pelo corpo do Senhor. É assim que você trata o seu filho, a sua filha? É assim que é a casa de Deus de acordo com o Novo Testamento? Não! É assim que Paulo lidava com as pessoas, com os apóstolos e com os irmãos? Era assim que Jesus tratava os seus?

Deus nos chamou para ser pais espirituais desta geração. Isso atrairá as pessoas a viver no melhor lugar do mundo para se estar. Vão achegar-se à vida da igreja adolescentes, jovens totalmente perdidos e rejeitados lá fora, pessoas que usavam drogas e estão com a vida arruinada, aqueles que cederam à prostituição e à homossexualidade desenfreada. Vão se achegar porque encontraram um lugar de aceitação incondicional e sem julgamentos prévios, um ambiente livre de juízo, comparações, rejeição ou competição. Pais ou patrões? Vão se aproximar porque encontraram um lugar de amor generoso, de investimento paciente e principalmente de paternidade.

Guarde esses fundamentos para que a igreja do Senhor possa crescer. E não permita que esse espírito de paternidade e de investimento seja trocado por uma atitude patronal, uma atitude de tratar as pessoas como funcionários, ou como se fossem obrigadas a fazer o que você quer, na hora que quer, do jeito que quer sob pena de serem excluídas, demitidas ou rejeitadas. Se alguém vive isso em algum lugar, está desfigurando a igreja. Isso não é e nunca foi igreja, isso é uma empresa, é como o Bradesco! Esse tipo de ambiente compromete o crescimento, pois as pessoas acabam percebendo que nada ali lhes pertence. São meros trabalhadores braçais de uma “igreja-empresa” a vender um serviço para sua clientela.

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