O tribunal de Cristo

O entendimento comum das pessoas é de que haverá um certo juízo final. Isso tem sido ensinado pelos filmes de Hollywood, mas não há tal ensino na Palavra de Deus. Na verdade, o ensino do Novo Testamento é que haverá três julgamentos distintos. O primeiro julgamento será o julgamento dos crentes. Ele é chamado de tribunal de Cristo (2 Co 5.10). O julgamento dos crentes não é para condenação, pois eles já possuem a vida eterna (Jo 3.18; Rm 8.1). O julgamento do tribunal de Cristo é uma questão de galardão, recompensa, ou então de disciplina. Este julgamento será antes do milênio, por ocasião da vinda de Cristo.

O segundo é o julgamento das nações que estiverem na terra quando o Senhor voltar. É chamado de julgamento das nações. Esse julgamento será de acordo com a forma como as nações tratarão os judeus e cristãos perseguidos pelo anticristo durante a grande tribulação (Mt. 25:31-46). Quando o  Senhor Jesus voltar, as nações continuarão existindo sobre a terra, nem todas as pessoas morrerão durante a grande tribulação. Assim, os que restarem serão julgados por Ele na sua vinda. O último julgamento é chamado de julgamento do grande trono branco (Ap 20.11-15). Este será o julgamento daqueles que morreram sem Cristo. Eles ressuscitarão no fim do milênio e serão lançados vivos no lago de fogo e enxofre.

Veja que o Senhor não mistura plateia. Cada julgamento é para um tipo de gente. O tribunal de Cristo é apenas para os salvos, os filhos. Ele ocorrerá na volta do Senhor, mas o julgamento do grande trono branco é para os ímpios, e estes ressuscitarão no fim do milênio. A ideia de que os crentes serão julgados parece contradizer o conceito da graça, mas não há contradição alguma. Você nunca mais será condenado, pois Cristo já levou a sua condenação na cruz, mas você, como filho, deverá prestar contas da graça que recebeu. Naquele dia, o Senhor requererá de nós os frutos. Somos indesculpáveis, porque recebemos o completo suprimento da obra consumada, da graça abundante e do poder do Espírito.

É um fato que todos os crentes foram feitos justos por causa da obra consumada, mas alguns vivem como derrotados. No dia do tribunal de Cristo, nossas obras serão checadas e o crente vencedor será manifestado. O que pode levar um crente ainda a viver como derrotado?

Viver pela lei tornando a graça sem efeito
Algo fundamental que precisamos compreender é que, embora todo crente seja um vencedor, ele pode ainda viver como um derrotado. Vivemos como derrotados quando caímos da graça. Quando confiamos em nossa própria justiça e obediência em vez de descansar no dom da justiça que temos em Cristo. Nesse momento, Cristo se torna sem efeito em nossa vida (Gl 5.4).
Todo crente que ainda confia na justiça da lei para se relacionar com Deus acaba vivendo como um crente derrotado. Somente aqueles que recebem a abundância da graça e entendem o dom da justiça podem reinar em vida por meio de Cristo. E se não reinamos em vida, invariavelmente sofremos perda espiritual (Rm 5.17).

Quando reinamos em vida por meio do dom da justiça, no fim receberemos a coroa da justiça. Nós reinamos porque cremos que a coroa da justiça já é nossa. O vencedor reina pela justiça da fé (2 Tm 4.8). Existem muitos crentes sinceros que procuram viver uma vida santa e justa. Veja que não há nada de errado nisso, o problema acontece quando tentamos nos relacionar com Deus confiados em nossa própria justiça e obediência. Paulo diz que os judeus eram zelosos das coisas de Deus, mas não tinham entendimento. Qual é o entendimento que eles não tinham? Eles não conheciam a justiça de Deus (Rm 10.2-3).

Em 2 Coríntios 5.17, diz que fomos feitos justiça de Deus, e Romanos 1.17 diz que a justiça de Deus se revela no evangelho. Desconhecer a justiça de Deus, portanto, é ignorar o evangelho. Paulo diz aos Gálatas que tentar viver pela própria obediência aos mandamentos é algo muito sério, pois anula a obra de Cristo, tornando-a inútil (Gl 2.21). Precisamos rejeitar a vida confiada em nossa própria obediência aos mandamentos e viver segundo a justiça que procede de Deus. Qual justiça procede de Deus? Aquela que é pela fé. E ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé. (Fp 3.9)

Se não vivemos pela justiça da fé, viveremos como derrotados. Não importa o quão zeloso você seja, se confia em sua própria obediência para se relacionar com o Pai, ainda é um crente derrotado. Este é o primeiro ponto que será requerido no tribunal de Cristo.

Tornar a graça vã
Um pensamento comum entre cristãos religiosos é que não devemos fazer coisas para Deus pensando na recompensa. Mas Hebreus 11 diz que a fé que agrada a Deus é aquela que crê que Ele vai nos recompensar. Precisamos crer que Deus é galardoador. Galardoar significa recompensar. Deus é aquele que recompensa a todos os que o buscam. Muitas vezes, somos recompensados aqui, mas a recompensa final será dada no tribunal de Cristo. Na mente de alguns, a recompensa é algo que contradiz a graça de Deus, mas não é assim que ensina o Novo Testamento. Deus nos dá coisas pela sua graça e, quando nós a recebemos por fé, Ele ainda nos recompensa por isso.

E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus (2 Co 6.1). É possível a um crente receber a graça de Deus e essa graça tornar-se vã. Deus pode ter colocado em você o desejo de trabalhar com crianças, mas depois de avaliar as dificuldades do trabalho, você desiste de fazê-lo. Você recebeu graça, mas essa graça se tornou vã em sua vida.
Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo. (1 Co 15.10)

Um fato da vida é que, quando não respondemos a Deus, Ele vai encontrar outra pessoa para preencher aquela posição. Depois que Judas traiu Jesus e se matou, lemos em Atos que Pedro disse que outro deveria tomar o seu lugar. O número dos apóstolos precisava ser completo (At 1.15-26). O substituto receberia as bênçãos e a recompensa que poderia ter sido de Judas. Para nós, é um imenso privilégio quando o Espírito se move em nós, dando-nos uma direção ou encargo.
Quando o Senhor Jesus fala às sete igrejas, Ele diz: “Eu conheço as suas obras”. Em outras palavras, Ele dizia que conhecia os frutos e os resultados do trabalho de cada um. Se você usar a graça que Deus lhe deu, você terá um grande resultado e inevitavelmente será bem-sucedido. As suas obras são um reflexo de como você está usando a graça que recebeu. As obras são o sinal de que alguém realmente recebeu graça. Essas obras serão checadas no tribunal de Cristo.

Há pessoas que nos criticam dizendo que ensinamos a graça, o favor imerecido, mas as avaliamos de acordo com a obra delas. Entretanto, a verdadeira graça recebida sempre se manifesta na forma de frutos e obras. Se alguém diz que recebeu graça, mas não tem obras, está mentindo. A vontade de Deus é que a graça que Ele tem nos dado não se torne vã. A graça que se torna vã é um vasto recurso que foi rejeitado ou guardado e nunca foi usado. Todos nós recebemos graça, mas o crente derrotado a torna vã.

Não manifestar boas obras
Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. (Ef 2.8-10). A Palavra de Deus é absolutamente clara quando diz que somos salvos pela graça. Não há nenhuma obra humana envolvida em nossa salvação. Tudo foi feito pelo Senhor e ela é recebida unicamente por fé. O verso 10, porém, acrescenta que fomos salvos para as boas obras. Não somos salvos pelas obras, mas para as boas obras. Isso significa que a graça operando em nós vai produzir obras.

Há pessoas que fazem coisas para conquistar o amor de Deus, mas o vencedor é aquele que faz porque entendeu o quanto é amado. O amor de Deus dentro dele o constrange a manifestar graça na vida de outros. A verdade é que não precisamos fazer nada para conquistar o amor de Deus, mas é muito ruim receber tanto amor e isso não produzir em nós nenhum desejo de servi-lo. Nós temos recebido muita graça, superabundante graça, e naquele dia o Senhor nos perguntará o que fizemos com essa graça. Este será o julgamento dos crentes.

Edificar com madeira, palha e feno
Existe uma diferença da forma como o reino é adquirido e a forma como a salvação é alcançada. A salvação é pela graça, enquanto reino requer obras. Todavia, devemos lembrar que essa obra também é feita pela graça. É uma graça participar dela e ela mesma somente será aceita se feita na dependência completa de Deus. Em 1 Coríntios 3.13-15, Paulo diz que haverá “o dia” em que as nossas obras serão testadas diante de Deus. Todo crente vai comparecer diante do tribunal de Cristo, onde a obra de cada um será testada pelo fogo (2 Co 5.10). Se a obra permanecer, haverá galardão. O teste será o fogo de Deus.

A Palavra de Deus, em 1 Coríntios 3, diz que a nossa obra pode ser de dois tipos: ouro, prata e pedras preciosas ou madeira, palha e feno. Ouro, prata e pedras preciosas representam a boa obra, visto que resistiram ao fogo; enquanto madeira, feno, palha, que o fogo destrói, representam uma obra sem valor. O fogo provará qual seja a obra de cada um. O fogo aqui são os olhos do Senhor, que são como chama de fogo. No tribunal de Cristo, todas as nossas obras serão manifestas (Rm 14.10).

Deus não pergunta quão grande é o edifício que nós estamos construindo, mas Ele está interessado em saber que tipo de material temos usado. A salvação não depende do que fazemos sobre o fundamento, mas apenas se estamos ou não em cima do fundamento. O fundamento é Cristo, e se estamos n’Ele, já estamos salvos, mas isso não é garantia de que receberemos o galardão. O tribunal de Cristo é para recompensa. A Palavra de Deus diz que a recompensa é dada por causa da obra. Assim como a Bíblia diz claramente que a salvação é pela fé, ela diz claramente que a recompensa é pela obra. A Bíblia revela-nos que a salvação é pela fé e a recompensa é pela obra dos cristãos. A fé está relacionada à salvação; a obra está relacionada à recompensa.

Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e, sim, como dívida (Rm 4.4) 

Dar uma recompensa a alguém que trabalha não é graça, mas uma dívida. Em outras palavras, como alguém pode obter uma recompensa? A recompensa vem pelas obras. É claro que as nossas obras são elas mesmas fruto da graça, mas em alguns crentes a graça se torna vã porque não resulta em obras. Eu sou aquele que sonda mente e corações, e vos darei a cada um, segundo as vossas obras. (Ap 2.23).

Esse versículo diz que o Senhor fará todos conhecerem que Ele é Aquele que sonda as mentes e os corações e dará a cada um segundo as suas obras. Em outras palavras, Ele recompensará a cada um segundo as suas obras. É claro que essa obra não é nossa própria obra, mas é quando permitimos o Espírito Santo agir através de nós.
A Primeira Epístola diz:
Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão. (1 Co 3.14)
Aqui diz que, se a sua obra permanecer, você será recompensado. Não diz que, se a sua fé permanecer, você será recompensado. A questão da recompensa depende da obra da pessoa. A Bíblia distingue claramente salvação de recompensa. Ela nunca confunde a salvação e o galardão, e nunca confunde a fé e a obra. 
Sem a fé, o homem não pode ser salvo. E sem as boas obras, o homem não poder ser recompensado. As obras de alguém devem resistir diante do tribunal de Cristo e sobreviver ao exame minucioso dos olhos de fogo, antes que possa receber um galardão.

Perguntas para compartilhar:
– A graça tem feito parte de sua vida de que maneira?
– Qual tem sido o seu entendimento sobre a justiça de Deus?
– De que forma tem sido a sua obra: ouro, prata e pedras preciosas ou madeira, palha e feno?

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