O homem que precisava voltar para casa

Em Lucas 8.22, o Senhor Jesus chama os seus discípulos e diz: “Vamos passar para o outro lado do mar da Galileia”. O Senhor estava em Cafarnaum e navegou até o outro lado do lago. Nas palavras do Senhor, percebemos que ele não estava indo sem direção, mas tinha algo para fazer do outro lado. Quando eles estavam no meio do mar, sobreveio uma grande tempestade e eles estavam a ponto de afundar. O Senhor, porém, dormia. Os discípulos o despertam, dizendo: “Mestre, Mestre, estamos perecendo!” Despertando-se Jesus, repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo cessou e veio a bonança. É fascinante imaginar o Senhor dormindo num barco balançando violentamente no meio de uma tempestade. Nisso, vemos o nível de descanso e tranquilidade em que Ele vivia. Ele apenas manda que o vento pare e o mar se aquiete. Ele não faz uma oração, mas simplesmente dá uma ordem.

Logo depois, eles desembarcaram na terra dos gerasenos ou gadarenos. E, logo ao desembarcar, veio ao encontro de Jesus um homem possesso de demônios. Este é o homem mais endemoninhado dos Evangelhos, o endemoninhado gadareno. A Escritura diz que cadeias de ferro não podiam segurá-lo. Ele arrebentava qualquer corrente. Creio que essa história está registrada para a nossa edificação. Uma das coisas que podemos aprender é como vivem aqueles que estão debaixo de influência ou controle maligno. Quanto mais debaixo de opressão uma pessoa estiver, mais ela se parecerá com esse homem. Quais são as características dele?

Sinais de opressão
Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de demônios que, havia muito, não se vestia, nem habitava em casa alguma, porém vivia nos sepulcros. (Lc 8.27)
E, embora procurassem conservá-lo preso com cadeias e grilhões, tudo despedaçava e era impelido pelo demônio para o deserto. (Lc 8.29).
Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras. (Mc 5.5)

a – Clamando entre os sepulcros
Primeiro, diz-se que ele vivia clamando, chorando no meio dos sepulcros. Assim, vemos claramente que a depressão é um sinal de ataque maligno. Uma pessoa deprimida pensa todo o tempo na morte. Para todo lado que olha, só consegue ver morte, como se estivesse andando no meio de túmulos. Ele também chorava. O seu choro era puramente existencial, pelo peso da existência oprimida por demônios.

b- Sozinho no deserto
A segunda coisa é que ele não habitava em casa nenhuma, mas o demônio o impelia para o deserto. O que isso significa? Uma pessoa oprimida busca estar sempre sozinha. O grande sinal de que alguém nasceu de novo é que ele anseia pela comunhão com os irmãos. Ele sente prazer no culto congregacional. Ele não quer mais viver sozinho. Um crente pode sofrer ataques malignos. E, quando isso acontece, a tendência da pessoa é se afastar. O diabo quer sempre produzir isolamento, mas o Espírito sempre gera vida corporativa. O nosso Deus subsiste na forma de comunidade, três em um, e quando recebemos a sua natureza, nós também buscamos a comunhão uns com outros.

O diabo também impelia aquele homem para o deserto. O Senhor disse, em Lucas 11.24, que, quando o espírito imundo sai de uma pessoa, ele anda por lugares áridos. Isso mostra que os demônios vivem em lugares de sequidão. Mas o Senhor disse que quem cresse n’Ele teria rios de água viva fluindo do seu interior (Jo 7.38). Ele é como árvore plantada junto a correntes de água (Sl 1.3). Quando passa pelo deserto, ele o transforma num jardim regado (Sl 84.6). Todavia, aquele que está debaixo de maldição a Bíblia diz que é como um arbusto solitário no deserto. O resultado da opressão é sequidão.

c – Ferindo-se com pedras
Outra característica é que o endemoninhado feria o seu próprio corpo com pedras. Muitos não sabem, mas essa prática de se cortar tornou-se hoje uma epidemia no meio de adolescentes. Este é o sinal de uma geração oprimida. A Bíblia também diz que, quando os profetas de Baal clamavam a Baal no monte Carmelo, eles se cortavam. O diabo quer ser adorado com automutilação e sofrimento.

d- Vivendo nu
Depois que o homem foi liberto, lemos que o Senhor o vestiu. Isso significa que ele vivia nu. Uma coisa comum em pessoas oprimidas é que elas sempre querem se despir. A imoralidade e a falta de pudor é um sinal de opressão. Segundo a descrição bíblica, ele estava sempre sozinho, antissocial, se cortando, nu, chorando e impelido ao deserto. Estas são as características que vemos no mundo. As pessoas estão se cortando, estão chorando de angústia, antissociais e se isolando dos outros. Estes são sinais da atividade dos demônios na vida de uma pessoa.

Sinais de um homem livre
Entretanto, quando o Senhor Jesus disse: “Vamos passar para o outro lado”, Ele tinha esse homem em mente. O Senhor saiu para encontrá-lo.

E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo em alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes. Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem, pois muitas vezes se apoderara dele. E, embora procurassem conservá-lo preso com cadeias e grilhões, tudo despedaçava e era impelido pelo demônio para o deserto. Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião, porque tinham entrado nele muitos demônios. Rogavam-lhe que não os mandasse sair para o abismo. Ora, andava ali, pastando no monte, uma grande manada de porcos; rogaram-lhe que lhes permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus o permitiu. Tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do lago, e se afogou. (Lc 8.28-33).

O Senhor Jesus cruzou o mar da Galileia apenas para encontrar aquele homem. Ele pôde ouvir o seu choro. Aquele homem era a ovelha perdida, e o Senhor veio para resgatá-la. Jesus falou apenas uma palavra: “Vá” e todos os demônios se foram. Depois da libertação do homem, os moradores da cidade saíram e pediram para que Jesus se retirasse dali. O Senhor, então, entrou novamente no barco e foi embora. Veja que o Senhor cruzou o mar apenas por causa de uma pessoa, aquele endemoninhado. Aos nossos olhos, a pessoa que menos merecia foi a única que recebeu graça. A propósito, você percebeu? Jesus estava no navio e, no meio do caminho, o diabo, trouxe uma tempestade. Ele tentou impedir que Jesus fosse até aquele homem. Existem demônios chamados potestades dos ares e certamente há demônios nos mares, mas com apenas uma palavra o Senhor acalmou a tormenta. Calma perfeita. Só uma palavra. E do outro lado, o endemoninhado experimentou a mesma calma perfeita quando Jesus expulsou os demônios.

O diabo não sabe todas as coisas, mas ele certamente percebe quando Deus está para fazer algo novo na vida de alguém. Creio que há uma grande movimentação de anjos ao derredor. Então, ele sempre levantará uma grande tempestade antes que o Senhor realize a sua obra. Mas não se preocupe, nós podemos ordenar ao mar e ao vento e eles devem nos obedecer. O Senhor, porém, só mandou o mar se acalmar porque os discípulos clamaram, a forma como Ele mesmo fazia batalha espiritual era dormindo no meio da tempestade. O Senhor pergunta o nome ao endemoninhado e ele diz que é legião. Uma legião eram seis mil soldados. Nem dá para imaginar o sofrimento daquele homem. Assim, fica mais fácil entender porque ele viva clamando pelos sepulcros no meio do deserto.

O Senhor disse que Ele veio para as ovelhas perdidas da casa de Israel. Isso significa que aquele endemoninhado era judeu. Mas ele vivia numa Decápolis, que eram cidades romanas em Israel. Ali eles criavam porcos, o que não era permitido a judeus. Eles os criavam para sustentar os romanos. Aqueles porcos eram para sustentar o inimigo. É muito ruim quando providenciamos alimento para demônios. Os demônios clamam para que o Senhor os permita entrar nos porcos, e o Senhor permite. Eram três mil porcos. Isso significa que foram dois demônios para cada porco. Um homem sozinho suportou seis mil demônios por anos, mas os porcos preferiram morrer a carregar dois demônios por alguns minutos. Alguns creem que foram os demônios que mataram os porcos, mas eu creio que os porcos preferiram morrer a ter de carregar demônios.

Os porqueiros, vendo o que acontecera, fugiram e foram anunciá-lo na cidade e pelos campos. Então, saiu o povo para ver o que se passara, e foram ter com Jesus. De fato, acharam o homem de quem saíram os demônios, vestido, em perfeito juízo, assentado aos pés de Jesus; e ficaram dominados de terror. E algumas pessoas que tinham presenciado os fatos contaram-lhes também como fora salvo o endemoninhado. Todo o povo da circunvizinhança dos gerasenos rogou-lhe que se retirasse deles, pois estavam possuídos de grande medo. E Jesus, tomando de novo o barco, voltou. (Lc 8.34-37).

Quando as pessoas saíram da cidade, elas viram aquele que antes era endemoninhado, vestido, em perfeito juízo e aos pés do Senhor. Estas são as características daquele que provou a libertação e a graça do Senhor.

a – Vestido
O primeiro sinal de todo aquele que é livre é que ele é vestido de Cristo. Depois que Adão pecou, ele precisou de roupa. Deus, então, mata um animal toma o seu pelo e faz roupas para Adão e Eva. Eu creio que aquele animal era o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Agora, quando Deus olhava para Adão, Ele via o cordeiro. Adão estava vestido do cordeiro. Onde estava essa roupa que o Senhor deu ao homem? Eu creio que era aquela que Ele usava como travesseiro durante a tempestade no barco. Ele estava guardando para vestir a ovelha que seria resgatada. O Senhor providencia roupas para nós hoje também. Nós estamos vestidos diante de Deus. A nossa roupa é a justiça de Cristo.

b- Em perfeito juízo
O homem sem Deus não tem a mente lúcida. Ele comete pecados absurdos e completamente insensatos. Mas, quanto mais nos enchemos do Senhor, mais sóbrios nos tornamos. Quanto mais cheios do Espírito, mais clareza temos sobre todas as coisas. A presença de Deus traz lucidez, mas a opressão maligna produz uma mente embotada e confusa, raciocínio torto e conclusões absurdas.

c – Assentado
Estar sentado nos fala de uma postura de descanso. Depois que fomos salvos, a Palavra diz que fomos assentados com Cristo nos lugares celestiais. Aquele que é salvo imediatamente é introduzido no descanso. A maneira como servimos a Deus hoje é no descanso.

d – Aos pés do Senhor
Nessa posição de descanso, nós nos assentamos aos pés do Senhor. Esta era a posição de Maria a respeito de quem o Senhor disse que escolheu a melhor parte (Lc 10.42). Antes, ele vivia no meio dos sepulcros clamando e se cortando com pedras, mas agora ele clama para seguir o Senhor.
O homem de quem tinham saído os demônios rogou-lhe que o deixasse estar com ele; Jesus, porém, o despediu, dizendo: Volta para casa e conta aos teus tudo o que Deus fez por ti. Então, foi ele anunciando por toda a cidade todas as coisas que Jesus lhe tinha feito. (Lc 8.38-39).

Esta ordem do Senhor pode ser entendida sob vários prismas. Em primeiro lugar, precisamos entender que o primeiro lugar onde devemos testemunhar do Senhor é na nossa casa. Mas eu creio também que ele precisava voltar para a sua casa porque havia alguma relação entre o seu endemoninhamento e a sua antiga vida familiar. Há famílias que são tão doentes e disfuncionais que produzem gente possessa. O Senhor queria que ele voltasse para levar libertação e saúde à sua casa. Mas o que mais nos choca é que, no fim de tudo, o povo da cidade rejeitou Jesus. E por que rejeitaram o Senhor? Certamente foi por causa dos porcos. Custou muito caro a libertação daquele homem. Três mil porcos hoje custam mais de um milhão de reais. Todo aquele dinheiro por causa de um único homem era demais para a gente daquela cidade.

Infelizmente, ainda há irmãos que acham muito caro enviar missionários, construir um prédio para a igreja ou publicar materiais. Gostam de dizer que não há necessidade de nada disso para fazer a obra de Deus. Mas eu suspeito que é uma mentalidade de desvalorizar o preço da libertação de um homem. Se o próprio Senhor Jesus mandou o homem de “volta para os seus”, significa que o melhor para ele era voltar atrás. Às vezes, só se avança de volta para as origens. Se, para Jesus – que “convidava alguns a segui-lo” –, poderia haver a possibilidade de ser melhor para alguém não ir com Ele, o que dizer da igreja local? Será que todos devem seguir conosco sempre? Evidentemente, nem todos ficam conosco, pois alguns precisam voltar para testemunhar.

O Senhor dá ao homem liberto duas ordens:
1 – Vá e encontre os seus, os da sua casa.
2 – Vá e testemunhe da graça! Conte o que o Senhor fez por você, como teve misericórdia de você (Mc 5.19).

Creio que essas ordens se estendem a todos nós que provamos da graça e da misericórdia do Pai.

Perguntas para compartilhar:
– Quais são os sinais da atividade dos demônios na vida de uma pessoa?
– Por que o cristão deve viver em comunhão com os irmãos?

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