O Cristianismo não é religião.

Vivemos num tempo de obscuridade em que a verdade do evangelho foi substituída em muitos lugares por um tipo de religião humana. Mas a vida cristã nada mais é do que Cristo em nós. Transformar Cristo numa religião é dizer que o seu sacrifício na cruz foi inútil e que precisamos fazer algo por nós mesmos para alcançar a salvação. O cristianismo não é uma religião. Falando em termos precisos, o cristianismo é uma questão de fé. O cristianismo é definido pela fé. É a fé que torna real a verdade do evangelho. A religião é sempre um sistema exterior e humano. É o homem tentando pagar a sua entrada no céu. Devemos rejeitar tudo o que procede da religião. Como podemos identificar conceitos e práticas religiosas na igreja? A maneira de vermos isso é olhando para as práticas do Velho Testamento. A Antiga Aliança é o modelo de toda religião. Com base nisso, podemos afirmar que toda religião possui cinco características básicas.

1. O TEMPLISMO

Recentemente, uma igreja resolveu construir o Templo de Salomão na cidade de São Paulo. É a expressão máxima do templismo nos dias de hoje. Todos os evangélicos históricos possuem templos. Eles não podem criticar essa obra, mas e quanto a nós? Infelizmente, ainda temos alguns sinais de templismo entre nós. O primeiro deles é a ênfase na visitação de Deus, e não na sua habitação. No Velho Testamento, havia visitação, mas no Novo Testamento, temos habitação de Deus. O que você prefere, uma visita de Deus ou tê-lo habitando em você eternamente? Não há dúvida de que a habitação é muito melhor, mas mesmo assim ainda temos irmãos buscando uma visitação divina. Um segundo sinal de templismo é a ideia de que ficamos mais próximos de Deus em nosso culto. Será que ficamos mais perto de Deus porque fomos a um culto num prédio? No Velho Testamento, Deus habitava primeiro no Tabernáculo e depois no Templo em Jerusalém. Hoje, Ele habita em cada crente individualmente e na igreja como um corpo. Segundo o conceito do Velho Testamento, você ficaria mais perto de Deus quanto mais perto estivesse do Templo. Um cidadão comum de Israel certamente invejava a intimidade que um sacerdote podia ter com Deus, uma vez que ele podia entrar no Lugar Santo, algo que era vedado ao cidadão comum. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. (At 17.24) Nós somos o templo de Deus hoje. Estritamente falando, o Cristianismo não possui edifícios, nem templos. O judaísmo tinha um templo, nós não os temos mais. Se voltarmos a estabelecer prédios como templos, incorreremos em um retrocesso ao judaísmo. Precisamos entender que somos o templo de Deus e que Deus não habita em prédios. Nós somos a sua morada. Deus não mora no prédio da igreja. Quando você vai embora depois do culto, Ele o acompanha. Ele habita com você, porque você é sagrado, e se você está cheio de Deus, aonde você for, torna-se sagrado também. Somos o seu templo e o carregamos dentro de nós. Onde nós pisamos, Deus finca suas pegadas; aonde nós chegamos, Deus chega junto. O prédio para nós é apenas um lugar de treinamento e celebração, a vida normal da igreja acontece em nosso dia a dia. Apesar de, no Velho Testamento, Deus habitar num templo, isso já não acontece no Novo Testamento. Hoje, nós somos o seu templo, é em nós que Ele habita. Assim, biblicamente falando, a igreja do Novo Testamento possui um lugar de reunião, mas não possui templos.

2. O LEGALISMO

A segunda característica fundamental do Velho Testamento é a lei. Não há judaísmo sem a lei. A lei era o centro da vida do povo. A lei dos judeus era escrita em tábuas de pedras, mas a lei da nova aliança, o Novo Testamento, é escrita nos nossos corações (Hb 8.10). O Espírito nos ensina a respeito de todas as coisas. A lei do Espírito foi impressa dentro do nosso próprio espírito e não precisamos mais seguir a lei de Moisés. Seguindo a lei do Espírito, nós acabamos cumprindo a lei de Moisés, porque a lei do Novo Testamento é superior. Não se trata de uma questão de decorar normas e regras, mas de ter uma pessoa viva residindo dentro de nós. Ninguém pode seguir a lei e cumprir plenamente a vontade de Deus. Para isso, precisamos ter a lei do Espírito da vida, uma pessoa dentro de nós falando conosco, orientando-nos e dirigindo-nos. O fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que nele crê (Rm 10.4). Não devemos mais seguir leis exteriores. O Espírito da Verdade nos conduz a toda a verdade.

3. O CLERICALISMO

No Velho Testamento, a unção não era derramada sobre todo israelita, mas apenas sobre reis, sacerdotes e profetas. Mesmo assim, não era uma habitação permanente, mas a unção vinha sobre eles apenas em alguns momentos. Muito diferente disso é a realidade do Novo Testamento. Hoje, a unção habita em todos nós e permanece em nós. Nós precisamos de uma unção nova? Você não precisa de uma nova unção. Somente precisaríamos de uma nova unção caso a unção que possuímos se acabasse ou ficasse velha. Mas a verdade do Novo Testamento é que a unção permanece em nós e ela não envelhece. Eu sei que afirmar isso pode ser muito complicado, pois estamos habituados a receber a ministração da unção, estamos sempre buscando uma nova unção. No entanto, você sabia que a palavra “unção” ou “ungido”, referindo-se aos crentes, só pode ser encontrada em apenas três passagens no Novo Testamento? Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus, que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração. (2Co 1.21-22) E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento. (1Jo 2.20) Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou. (1Jo 2.27) Muitos, quando querem crescer em Deus, tornam-se pastores. Se você quiser crescer espiritualmente, precisa mesmo se tornar um pastor ou missionário? No Velho Testamento, havia uma classe sacerdotal. Hoje, nos dias do Novo Testamento, não existe uma classe sacerdotal no cristianismo, mas todos os crentes são sacerdotes do Senhor, como diz Pedro: Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. (1Pe 2.9) Toda religião possui algum tipo de classe clerical. Toda elas possuem algum tipo de sacerdote que está acima das pessoas comuns, mas hoje todos somos um em Cristo (3.28).

4. O RITUALISMO

No Velho Testamento, o crente confiava em rituais, sinais exteriores, como a circuncisão. Mas hoje o cristianismo não é algo exterior, é essencialmente algo interior e espiritual, algo que procede do coração. Ainda hoje, muitos procuram introduzir práticas e cerimônias exteriores na vida cristã. Em nosso país, tornaram-se comuns objetos abençoados, como flores, azeite, moedas, etc. Este é o maior sinal da decadência espiritual, pois esses mesmos acessórios tornaram-se parte do catolicismo na Idade Média. Os judaizantes concentravam se em uma coisa exterior, a circuncisão, e faziam disso a base da fé. Paulo, porém, mostra que as coisas exteriores não nos definem, ele diz que nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. O que realmente importa é o novo nascimento. Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo. Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. (Gl 6.14-15) O homem natural sempre recusa o que é interior e espiritual e procura uma religião cheia de cerimônias externas. Ele faz isso porque a religião exterior é muito fácil e cômoda, pois participar de cerimônias não exige fé e nem mudança de coração. Não estou dizendo que o exterior e o físico não tenham lugar na vida da igreja. Eles existem, mas apenas como sinal visível de uma realidade interior e espiritual. Tudo o que é espiritual inevitavelmente terá uma realidade exterior, mas nem tudo o que é exterior possui realidade. O batismo é um exemplo disso. Ele é equivalente da circuncisão no Novo Testamento, mas precisamos ser cuidadosos para não enfatizarmos exageradamente o batismo colocando-o como meio de salvação. O batismo é uma cerimônia que apenas tem valor se houver a realidade interior do novo nascimento.

5. AS OBRAS MORTAS

O Velho Testamento era caracterizado pelo que o homem poderia fazer para Deus, mas o Novo Testamento não é mais uma questão do que fazemos para Deus, e sim do que Ele fez por nós. O verdadeiro arrependimento é o arrependimento de obras mortas. O autor de Hebreus nos diz que o verdadeiro arrependimento é de obras mortas.
Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus. (Hb 6.1) O que são obras mortas? Muitos pensam que se trata do pecado em que vivíamos, mas a verdade é que as obras mortas são aquelas que fazíamos com o intuito de ganhar a nossa salvação. Era a nossa mentalidade antiga de barganha com Deus. Precisamos viver constantemente debaixo da verdade do Novo Testamento: não é o que eu faço para Ele, mas o que Ele fez por mim. Não apenas a salvação, mas toda a vida cristã é baseada nessa verdade. Toda religião ensina que a salvação depende das obras humanas. Todas elas ensinam que devemos merecer o favor de Deus através de nossas boas obras. Por causa disso, todo religioso é hipócrita, pois ele sabe que não consegue agradar a Deus com as suas obras, mesmo assim insiste nesse caminho. A cruz de Cristo anula nossas obras humanas. E o que há na cruz de Cristo que enraivece o mundo e o leva a perseguir aqueles que a pregam? “Cristo morreu na cruz por nós, pecadores, fazendo se maldição em nosso lugar” (Gl 3.13). Dessa forma, a cruz nos diz algumas verdades muito desagradáveis acerca de nós mesmos. A cruz mostra que somos pecadores, que estamos sob a maldição da lei de Deus e não podemos nos salvar por nós mesmos. Paulo mostra que, se houvesse possibilidade de sermos salvos pelas nossas boas obras, certamente a cruz nunca teria acontecido (Gl 2.21). Cada homem que olhar para a cruz ouvirá Cristo dizendo: “Eu estou aqui por sua causa”. É o seu pecado que estou assumindo, é a sua maldição que estou sofrendo, é a sua dívida que estou pagando, é a sua morte que estou morrendo”. A cruz nos coloca na posição correta. Ela provoca uma grande ferida no orgulho humano. A cruz é a prova divina de que somos maus e merecedores do inferno. A cruz mostra o imenso amor de Deus e prova que toda a obra de salvação é feita por Ele. Precisamos viver constantemente debaixo dessa verdade: não é o que eu faço para Ele, mas o que Ele fez por mim. Não apenas a salvação, mas toda a vida cristã é baseada nessa verdade. Não sofreremos perseguição e oposição se pregarmos bons princípios espirituais ou o alto padrão moral do cristianismo. O mundo não se importa com isso, mas se falarmos do Cristo crucificado e da sua graça, sofreremos perseguição. A graça anula as assim chamadas boas obras, e a cruz destrói o orgulho humano. Por causa disso, o mundo sempre resistirá à mensagem da cruz.

PERGUNTAS PARA COMPARTILHAR:

1. De que forma você tem identificado conceitos e práticas religiosas na igreja?

2. Quais características religiosas você considera ainda ser presentes em sua vida?

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