Na força de Deus

O verdadeiro líder de célula é aquele que possui um senso profundo de incapacidade. Eu sei que parece bem contraditório, mas é justamente essa atitude que nos qualifica a sermos usados por Deus. Homens cheios de autossuficiência e presunçosos, que se acham capazes de fazer a obra de Deus, deverão ser quebrados antes que possam ser úteis. Na vida espiritual, somente é obra de Deus aquela que procede da dependência d’Ele. Para Deus, tão importante quanto o que fazemos é a origem da força que usamos para fazer. Se fizermos a obra confiados em nossa própria força, o resultado será rejeitado por Deus.

Não pense que, somente por sermos incapazes de fazer algo, nós somos dependentes. Como já foi dito antes, enquanto a pessoa não sabe pregar, fica nervosa e depende de Deus em oração para poder ministrar. Enquanto é assim, Deus libera a sua unção e sua graça por causa da dependência. Todavia, depois de pregar algumas vezes, aos poucos ela ganha segurança e cada vez depende menos, e consequentemente ora menos. O resultado é que Deus também a usará menos. É por isso que a maneira de saber se dependemos ou não é pela quantidade de tempo que gastamos orando. Oração é o nosso “dependenciômetro”. Quem depende de Deus ora. Se não oramos, é porque julgamos que podemos fazer por nós mesmos sem depender de Deus.

Paulo disse que o poder se manifesta – se aperfeiçoa – na fraqueza. E por quê? Porque Deus definiu que tudo tem de ser feito em dependência d’Ele, como a única fonte de força.
Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. (2 Co 12.9)

Evidentemente, a fraqueza aqui não é da carne, do pecado e da incredulidade. É a fraqueza daquele que reconhece que, se Deus não edificar a casa, ele vai trabalhar em vão. A fraqueza que gera força é aquela que resulta em dependência de Deus. Deus precisa operar em nós para produzir essa dependência. Moisés foi um exemplo desse processo. A vida de Moisés é dividida em três períodos de quarenta anos. Os seus primeiros quarenta anos começam quando ele é retirado do Nilo. Ser “tirado” tornou-se a característica de toda a vida de Moisés. Primeiro, ele foi tirado das águas da morte para ser educado como o filho de um rei. No começo do segundo período de quarenta anos, ele foi tirado da corte do Egito para ir para o deserto e ficar a sós com Deus. Por fim, foi tirado do deserto para ser instrumento de Deus e retirar o povo da escravidão.

Nos primeiros quarenta anos no Egito, Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras (At 7.22). Moisés se considerava apto e habilitado para ser um grande líder. Ele confiava na força natural. Ciente de toda a sua capacidade e vendo os horrores da escravidão de seu povo, Moisés resolve fazer a obra de Deus por conta própria. Ele se colocou como voluntário. Não sabia que voluntários não realizam a obra de Deus. Ele estava no auge de sua vida física e intelectual. Mas, por isso mesmo, Deus ainda não podia usá-lo: Moisés ainda era forte demais e o poder de Deus se manifesta na fraqueza.

Aqueles que estão na carne não podem agradar a Deus. Não que eles não queiram e até tentam, mas não existe neles força para isso (Rm 8.8). Só podemos servir a Deus no espírito. Deus permite o deserto para conhecermos a nós mesmos e vermos quão indignos de confiança nós somos. Assim, Deus envia Moisés para passar quarenta anos no deserto. Deus não usa a habilidade ou força natural. Para quebrar a força natural, Deus permite o deserto. Por quarenta anos, Moisés guardou o rebanho de Jetro, seu sogro, no deserto. Nessa verdadeira escola, ele foi treinado para não confiar em sua habilidade natural.

Não pense que Deus utilizará sua força ou energia para o cumprimento do seu propósito. Para sermos usados por Deus, precisamos ter o coração voltado para Ele e para os seus propósitos. Mas Ele não tem intenção de utilizar nossa eloquência, conhecimento, talento, habilidade ou poder naturais. Durante esse segundo ciclo de sua vida, Moisés aprendeu as lições mais profundas do deserto. Até então, ele fora um ativista dinâmico, mas, durante o seu tempo no deserto, ele aprendeu a lição fundamental de que não é a informação colhida, mas a revelação transmitida que leva ao verdadeiro conhecimento de Deus.

A Palavra de Deus diz que “decorridos quarenta anos, apareceu-lhe, no deserto do monte Sinai, um anjo, por entre as chamas de uma sarça que ardia” (At 7.30). Depois de ter sido levado ao deserto por quarenta anos, Moisés deve ter ficado muito desapontado e deve ter perdido toda a esperança de que ainda seria usado por Deus. Ele não mais cogitava ser aquele a quem Deus usaria para resgatar o seu povo da escravidão. Mas, com oitenta anos, tendo Moisés passado por um completo processo e se achando completamente desqualificado, Deus o chamou. Este é o tratamento de Deus: levar-nos ao fim de nós mesmos, ao fim de nossas forças e habilidades. Moisés precisava aprender que tudo o que tinha origem no Egito deveria ficar para trás. Moisés deveria aprender o caminho da cruz. Esse princípio pode ser observado na vida de outros homens de Deus. Quando escolheu Gideão, o Senhor também não escolheu o mais forte ou o mais capaz em Israel. Em Juízes, lemos que o Senhor disse a Gideão:

Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te enviei eu? E ele lhe disse: Ai, Senhor meu! Com que livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai. Tornou-lhe o Senhor: Já que eu estou contigo, ferirás os midianitas como se fossem um só homem. (Jz 6.14-16)

Jeremias é outro exemplo de alguém que foi usado por Deus justamente porque se sentia incapaz:

Então, lhe disse eu: Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. Mas o Senhor me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor. Depois, estendeu o Senhor a mão, tocou-me na boca e o Senhor me disse: Eis que ponho na tua boca as minhas palavras. (Jr 1.6-9)

O primeiro princípio que todo líder espiritual precisa aprender é que Deus usa os fracos. Isaías diz que o Senhor “faz forte ao fraco, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Is 40.29).

Deus não escolheu você por causa de sua inteligência e grande capacidade intelectual. De fato, estas são coisas que Deus pode vir a destruir. Está escrito: “Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos entendidos” (1 Co 1.19). Se você se vê tão pequeno diante de uma tarefa tão grande, eu tenho boas notícias para você: Deus escolheu aqueles que são fracos para que a obra seja feita na força d’Ele.

Ao fazer essa afirmação, não quero passar a ideia de que Deus tenha algum prazer em nosso complexo de inferioridade. Ficar dizendo o tempo todo o quanto somos incapazes, que não servimos para nada e o quão inútil somos é uma atitude disfarçada de autocomiseração e introspecção. Embora sejamos fracos, não olhamos para nós mesmos, mas olhamos para a força de Deus. Não podemos por nós mesmos, mas certamente o Senhor fará proezas através de nós.
O tipo de fraqueza que Deus abençoa não é o complexo de inferioridade, mas a atitude de dependência que diz: “A graça do Senhor me basta”. Aquele que é fraco o é com Deus, e nunca com homens ou com o diabo.

Na verdade, um líder que se apresenta fraco diante dos homens está acabado. Deus escolheu usar os fracos, mas Ele abomina a fraqueza. Ele é o Deus dos fracos para fazê-los fortes diante do inimigo. Alguns acham que há mérito em se mostrarem fracos e frágeis diante dos homens. Fazem isso com o intuito de parecerem espirituais, mas se tornam patéticos e desonram ao Senhor. Diante de Deus, a minha atitude é de fraqueza daquele que diz: “Eu não sou”. Mas, diante do diabo, precisamos ter a atitude daquele que diz: “Eu sou o ungido de Deus”.

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