Morte na panela

Voltou Eliseu para Gilgal. Havia fome naquela terra, e, estando os discípulos dos profetas assentados diante dele, disse ao seu moço: Põe a panela grande ao lume e faze um cozinhado para os discípulos dos profetas. Então, saiu um ao campo a apanhar ervas e achou uma trepadeira silvestre; e, colhendo dela, encheu a sua capa de colocíntidas; voltou e cortou-as em pedaços, pondo-os na panela, visto que não as conheciam. Depois, deram de comer aos homens. Enquanto comiam do cozinhado, exclamaram: Morte na panela, ó homem de Deus! E não puderam comer. Porém ele disse: Trazei farinha. Ele a deitou na panela e disse: Tira de comer para o povo. E já não havia mal nenhum na panela. (2Rs 4.38-41)

A primeira coisa que o texto diz é que Eliseu voltou para Gilgal. Josué 5.9 nos dá o significado de Gilgal. O povo que saíra do Egito não havia sido circuncidado. Quando eles chegaram a Gilgal, todo o povo que nascera no deserto foi circuncidado antes de entrar em Canaã. Gilgal, portanto, significa tratar com a carne.

Disse mais o SENHOR a Josué: Hoje, removi de vós o opróbrio do Egito; pelo que o nome daquele lugar se chamou Gilgal até o dia de hoje. (Js 5.9)
Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo. (Cl 2.11)

O que é carne? É tudo aquilo que recebemos pelo nascimento (Jo 3.6). Coisas ruins e coisas naturalmente boas devem ser cortadas fora.
O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. (Jo 3.6)

Este é o lugar onde a vida espiritual começa genuinamente. Quem não começa aqui não pode dizer que começou a jornada. A palavra “Gilgal” significa “rolar para longe”. A cruz é o lugar onde nossa vergonha foi lançada e onde a nossa carne é cortada. A segunda coisa que lemos é que era um tempo de fome (2Rs 8.1; 6.24-30). A verdade é que o mundo vive com fome desde que o primeiro homem caiu no Éden. Ele comeu do fruto errado e por isso vive faminto por algo do céu. Aquela era uma época de grande fome na terra. Quando as pessoas estão desesperadas por comida, elas se dispõem a comer qualquer coisa.

Mas também existe fome no meio dos filhos de Deus. Existe fome por receber a genuína palavra de Deus. Nesse tempo, os discípulos dos profetas estavam sentados diante de Eliseu e o profeta disse ao seu moço: “Coloque uma panela grande e ferva o ensopado para os filhos dos profetas”. Então, alguém saiu ao campo para colher ervas. O ensopado já estava fervendo, mas uma pessoa saiu para tentar melhorar o que já estava pronto. Ele presumiu que o ensopado precisava de algo que o tornasse ainda melhor. Tudo começou no jardim. Deus preparou um rico banquete para o homem na primeira criação. O primeiro dia do homem foi o primeiro dia da obra consumada da criação. Eles não precisaram construir, semear ou fabricar coisa alguma, pois a obra estava consumada.

Deus queria que o homem desfrutasse de toda a glória, mas o homem começou a olhar para uma árvore e disse: “Acho que, se eu comer desse fruto, posso melhorar minha sabedoria”, mas daí veio a queda. O homem sempre quer acrescentar algo à obra de Deus, mas o resultado disso é morte. Um homem saiu e foi ao campo colher ervas. A palavra “erva” no hebraico é owrah, que significa algo brilhante, cintilante. As pessoas sempre querem que acrescentemos algo atraente e brilhante em nossas reuniões. Querem atrair as pessoas com coisas que brilham, mas a verdade é que a mensagem é o mais importante. Então, ele encontrou uma trepadeira, uma videira selvagem, e pensou que era uma videira. Elas são chamadas colocíntidas e hoje são usadas para fazer remédio, mas são venenosas. Eles não sabiam o que era aquilo, mas estava brilhando, pareciam maduros e bom para se comer – a mesma postura de Adão e Eva diante da árvore do conhecimento.

Aquele moço cortou e colocou no ensopado que estava pronto, ainda estava fervendo. Então, quando começaram a comer, eles gritaram: “Homem de Deus, há morte na panela!” E eles não podiam comer. A morte espiritual começa no prato onde comemos. A Palavra de Deus nos diz que nós somos aquilo que comemos. A maneira de o Senhor nos transformar é mudando a nossa dieta, e a maneira de o inimigo nos atingir é envenenando a nossa comida.

1- A morte na panela pode aparecer em qualquer lugar
Infelizmente, mesmo dentro de uma estrutura forte e com ensino vivo da palavra de Deus, pode surgir morte na panela. Precisamos vigiar continuamente para ver se aquilo que está sendo servido aos irmãos é realmente sadio. Na escola de profetas, havia três características marcantes. Primeiro, lemos que havia ensino e discipulado. A escola de profetas era o lugar onde os profetas eram treinados. Eliseu era o mestre e um homem de poder. Um santo homem de Deus. Certamente, ele foi um homem que nunca negociou os seus absolutos nem mercadejou o seu ministério. Mas, de forma surpreendente, foi justamente nesse tempo que apareceu a denúncia: “Morte na panela, ó homem de Deus!”

Também vemos que havia comunhão. O texto nos mostra que havia fome, mas eles estavam juntos na crise. Mesmo numa comunidade em que há comunhão, pode existir “morte na panela”. Por fim, lemos que havia uma liderança ungida. Eliseu havia sido discípulo de Elias. Ele era respeitado por causa da unção que estava sobre ele. Era um homem poderoso em obras e instrumento valioso para a realização de milagres extraordinários. Mas, mesmo nesse contexto, houve morte na panela.

2- A morte na panela precisa ser identificada
Precisamos identificar a morte na panela no tempo certo: “[…] e não puderam comer”. Temos alguns exemplos bíblicos da necessidade desse discernimento:
Em 1 Coríntios 14.29, Paulo nos adverte a respeito de profecias: “[…] os outros julguem”.
Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. (1Co 14.29).

Em 1 João 4.1, João nos dá uma ordem clara: “Provai os espíritos”.
Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. (1Jo 4.1)

Em 1 Timóteo 4.1, Paulo diz que, nos últimos dias, pessoas seguiriam doutrinas de demônios.
Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios. (1Tm 4.1).

O Senhor Jesus não só pregou a verdade, mas também denunciou o erro. Diversas vezes, Ele tratou duramente com o legalismo dos fariseus. Paulo ensinou a verdade do evangelho, mas ele denunciou muitas doutrinas falsas, como o ensino judaizante (At 15.1-2), o gnosticismo, o liberalismo do viver no pecado para que haja mais graça (Rm 6.1) e o misticismo legalista do não toques, não coma, não olhe, etc. (Cl 2.20-23).
Como perceber quando um ensino é cheio de morte?
-Quando se prega a lei em vez de se pregar a graça.
-Quando se prega condenação em vez de perdão eterno.
-Quando se prega autoajuda em vez de pregar o poder do Espírito.
-Quando se prega o que o homem pode fazer em vez do que Cristo já fez.
-Quando se prega que somos salvos pela graça, mas que a santificação é pelo nosso esforço próprio.
-Quando a pregação nos leva a crer que Deus está irado conosco.
-Quando pregam que a vitória sobre o pecado e o diabo é algo que conquistamos, e não que recebemos pela graça.
-Quando a pregação nos leva a sentir culpa e condenação em vez de ter alegria da justificação.
-Quando se prega que a bênção é para quem merece, em vez de ser pela graça.
-Quando a pregação ensina a fazer barganha com Deus.

3- A morte na panela precisa ser denunciada.
Alguém precisa ter a ousadia de dar o grito: “Morte na panela, ó homem de Deus!” Algumas vezes, para ficarmos bem com todos, deixamos que a morte continue sendo servida ao povo de Deus. Precisamos do zelo e da ousadia de Paulo. Em Atos 15.1-2, lemos como ele chegou a contender e a brigar por causa da morte que estavam colocando na panela naqueles dias. As pessoas estão famintas buscando pastos verdes. E, quando encontram novidades, logo as abraçam. A trepadeira é viçosa e, por isso os incaltos podem concluir que deve dar fruto bom. Há, porém, muitos ensinos que são desafiadores, bonitos e impactantes, mas que não são bíblicos, por isso são venenosos. Os discípulos dos profetas comeram veneno pensando estar se alimentando de coisa boa. Acharam parecidos. O joio é parecido com o trigo. Mas um é veneno, o outro é alimento.

4- Por que foram buscar trepadeira se tinham farinha?
A panela é o lugar da comida e deveria ser um lugar de vida, um lugar de sustento. É um lugar onde você não espera encontrar a morte, mas nutrição. O que a panela representa? Eu creio que é o ministério de ensino na igreja. A vida, a nutrição o alimento da palavra devem ser liberados do púlpito. O problema agora é que há morte na panela. Eles gritaram ao homem de Deus. Pelo menos sabiam a quem gritar, porque Eliseu é um tipo do nosso Senhor Jesus Cristo. E veja o que Eliseu disse: “Tragam um pouco de farinha”. Ele a colocou na panela e disse: “Sirva ao povo, para que eles comam”. E não havia mais nenhum mal na panela.

No mundo, o caminho é sempre este: se houver algo ruim, remova-o. Mas nas coisas de Deus, na vida da igreja é: acrescente algo maior. Nós somos abençoados, mas o mundo está debaixo de maldição. Há uma comida deliciosa à mesa, mas alguém a contaminou com uma gota de fezes. Ninguém vai comer, porque a impureza se espalha para toda a comida. Aquele filme é muito bom, só tem uma pequena cena erótica. Isso contamina tudo. Mas, com as coisas do Espírito é diferente. Apenas acrescente a fina flor de farinha. Nem sempre as coisas são o que parecem ser. Os erros mais perigosos são aqueles que parecem com a verdade. A meia verdade é mais perigosa que a mentira, pois se torna mais sutil, menos perceptível, por isso é mais perigosa. Há algo que tem contaminado a comida servida na igreja nestes dias. Eu chamo de doença dos gálatas. Essa doença tem contaminado a igreja do Senhor em nossa geração e precisamos nos livrar dela. Como essa doença se manifesta? Ela pode ser percebida na forma como os crentes se relacionam com Deus. Eles creem que foram salvos pela graça, mas vivem no seu dia a dia se relacionando com Deus com base na lei do merecimento.

A doença dos gálatas é que eles misturaram as duas alianças. Eles tentaram criar um tipo de doutrina que combinava um pouco da graça e um pouco da lei do Velho Testamento. Observando a forma severa como Paulo tratou esse problema, podemos concluir que se trata de algo muito perigoso para a igreja do Senhor. É isso que tem produzido morte dentro da igreja. Por causa dessa enfermidade espiritual, a vida cristã tem se tornado algo pesado e cansativo. Eu creio que a origem dessa relação problemática com Deus é fruto da doença dos gálatas. Essa doença é a mistura da lei com a graça. Essa mistura tem produzido morte na panela. E, quando essa comida é servida, o povo perece. Observe que, depois de perceberem a morte na panela, Eliseu pediu farinha e eles trouxeram. Isso significa que eles tinham farinha para fazer comida. Por que, então, usaram uma videira selvagem se poderiam ter usado a farinha?

-Queriam comer algo diferente. Isso é um espírito novidadesco. Não estavam realmente insatisfeitos com a comida que tinham, mas eram influenciados por desejo de novidades.

-Estavam cansados da comida que tinham. Como o povo no deserto, estavam cansados do maná. Quando saímos procurando por novidades, certamente encontraremos trepadeiras.

-Queriam oferecer uma comida especial diferente do habitual. Sempre que pregamos para agradar, colocamos morte na panela. Sempre que desejamos que nossa pregação pareça única e totalmente original, corremos o risco de colocar um ingrediente de morte na panela.

-De uma forma tola, simplesmente usaram para comer o que não conheciam. A última possibilidade é que simplesmente eram ingênuos e não conheciam aquele alimento. O homem de Deus precisa conhecer qual alimento usar. Aqueles líderes que não estão qualificados não podem decidir que comida liberar para a congregação ou para a célula.

Precisamos ser absolutamente cuidadosos com aquilo que nos alimenta. Não podemos comer todo alimento que se serve em nome de Deus. Existem muitas pregações fantásticas, ensinos arrebatadores que mexem com as emoções e sacodem as nossas estruturas que estão contaminadas por veneno perigoso. O diabo gosta de citar a Bíblia. Ele citou a Bíblia para Jesus no deserto. Mas o diabo usa a Bíblia contra a Bíblia. Ele usa a Bíblia para nos tentar. Ele cita a Bíblia fora do contexto, por pretexto. Ele cita a Bíblia pelas metades, torcendo o seu sentido. Assim, nem toda pessoa que menciona a Bíblia prega a Bíblia. A Bíblia na mão do diabo não é palavra de Deus, é palavra do diabo, é tentação (Mt 4.1-10). Nossas melhores intenções não transformam a natureza do alimento que recebemos. Minha intenção não altera a qualidade do alimento que recebo. A sinceridade não nos isenta das consequências de sinceramente comermos o veneno. O fato de você não saber que um alimento é venenoso não o torna saudável.

5- A morte na panela deve ser removida.
No livro de Levítico, temos a descrição de cinco ofertas. Dessas cinco, quatro são um tipo da morte do Senhor, mas há uma que representa a sua vida, é a oferta de manjares.
Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso. (Lv 2.1)

O primeiro elemento é a fina flor de farinha. Essa farinha é completamente pura, suave e macia. Nela não há nada grosseiro ou irregular. No Senhor, não havia nada grosseiro em suas palavras ou suas maneiras. Nenhuma característica n’Ele prepondera. Quando é firme, Ele não fere. Quando está servindo e lavando os pés, Ele não é servil, ainda há realeza n’Ele. É verdadeiro, mas gentil. Algumas pessoas são gentis às custas da verdade. Elas não dizem a verdade para parecerem agradáveis. Outras pessoas são muito sinceras, mas sem amor. Mas Ele fala a verdade em amor.

Jesus é farinha fina. E, sobre essa farinha, o óleo era derramado. O óleo é o Espírito Santo. Isso aponta para a sua vida terrena, Ele é uma farinha fina que é cheia do Espírito Santo. Toda palavra, toda ação foram motivadas pelo Espírito. Depois, era acrescentado o incenso. Isso significa que todo pensamento, toda palavra, toda ação subiam como um doce perfume diante de Deus. Ele era perfeitamente agradável a Deus. Quando Eliseu manda trazer farinha, isso aponta para Cristo. Quando servimos Cristo como pão, a comida que servimos não pode fazer mal nenhum. Precisamos ter o Senhor como centro de nossas pregações. Tenho ouvido pregadores que não mencionam o nome do Senhor nem uma vez sequer em toda a mensagem. Infelizmente, não trazem a farinha que elimina a morte na panela.

Nossos sermões nunca são perfeitos. Portanto, esteja certo de ter o Senhor Jesus em nossos sermões, pelo menos isso purificará o restante dos elementos impuros em nossa pregação. Em todo sermão, há uma opinião humana. Em todo sermão, há alguma tradição ou uma ignorância sendo manifestada. Mas quando você coloca o Senhor Jesus nele, isso purifica o resto da mensagem. Neste mundo debaixo de maldição, um pouquinho de impureza compromete todo o alimento, mas o Senhor Jesus é o único que faz o impuro se tornar puro. E Ele é o único maior que a impureza. Quando Ele toca o impuro, o impuro se torna limpo.

Perguntas para compartilhar:
1- O que a panela representa?
2- Como perceber quando um ensino é cheio de morte?

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