As faces da justiça própria

por Aluízio A. Silva, pastor presidente da Videira – Igreja em Células

Desfrutar do favor é a coisa mais importante em nossa vida. A vontade de Deus é que todos os seus filhos desfrutem desse favor continuamente, mas tristemente muitos não permanecem na posição do favor.

O que pode nos levar a perder o favor? Creio que Paulo nos dá a resposta em Gálatas 5.4-5. A graça de Cristo nada mais é que o favor de Deus sobre nós. Todavia, Paulo diz que podemos decair dessa graça. Isso não significa que perdemos a nossa salvação, como alguns equivocadamente pensam. Decair da graça significa sair de debaixo do favor de Deus. Nós decaímos da graça quando vivemos segundo a lei. A lei é o favor merecido – se nos comportamos bem, somos abençoados, mas se nos comportamos mal, recebemos juízo. Assim era a lei no Velho Testamento, mas a graça é o favor imerecido. Cristo já cumpriu a lei em nosso lugar e agora recebemos a bênção por causa da sua obediência.

Se vivemos ainda na lei, estamos na justiça própria e por isso deixamos de desfrutar do favor. O favor deve ser sempre o favor imerecido. Se o favor é porque merecemos, já não é mais graça ou favor de Deus (Rm 11.6). Graça é favor imerecido, enquanto as obras traduzem algum tipo de merecimento. Portanto, graça e obras são conceitos opostos. O problema é que não queremos depender do favor, por isso tentamos fazer alguma obra para merecer a bênção de Deus. O que faz com que a graça seja interrompida? Muitos rapidamente dirão que é o pecado, mas na verdade é a justiça própria.

Paulo diz que a fé é anulada quando vivemos no padrão da lei, ou seja, procurando merecer a bênção de Deus. A justiça própria faz com que a graça não tenha efeito. Muitos irmãos exteriormente parecem muito corretos moralmente, mas não desfrutam da promessa. A razão é que a fé foi anulada pela justiça própria. O pecado é realmente ruim e produz consequências terríveis, mas o que realmente bloqueia o fluir da graça e o favor é a justiça própria. É o pecador que pretensamente pensa ser justo. De fato, nós podemos dizer que somos justos, mas unicamente por causa da obra de Cristo, nunca por causa de nós mesmos (Rm 4.14).

Gostaria de mostrar quatro exemplos bíblicos de como a justiça própria anula a graça de Deus na vida do homem.

O exemplo de Pedro (1Jo 4.10)

Precisamos ter os olhos abertos para perceber que o ponto central é o amor de Deus por nós, e não o nosso amor por Ele. Nosso amor por Ele será apenas uma resposta do amor que recebemos. Quanto entendemos que somos amados, então nós o amamos. O apóstolo João era o discípulo a quem Jesus amava. Ele se identifica dessa forma no seu evangelho. Ele se gloriava em ser amado pelo Senhor. Pedro, por outro lado, se gloriava em amar o Senhor e de ser capaz de dar a própria vida pelo Senhor Jesus.

A lei diz: “Amará o Senhor teu Deus!”, mas a graça diz: “Nós amamos por que Ele nos amou primeiro!” Quando confiamos em nosso próprio amor pelo Senhor, estamos confiando na carne. Pedro representa aqueles que se apoiam em seu próprio amor pelo Senhor. Ele rapidamente disse: “Por ti darei a própria vida” (Jo 13.37-38). Pedro e João são dois estilos de vida. Dois tipos de ministério. No fim, João estava ao pé da cruz, mas Pedro negou Jesus. Com qual deles gostaríamos de nos identificar? Não confiamos em nosso próprio amor pelo Senhor, mas descansamos no seu amor por nós. O nosso próprio amor é lei, mas o amor d’Ele é graça.

O exemplo do fariseu (Lc 18.9-14)

A Palavra de Deus condena o pecado, mas precisamos admitir que o pecado não foi impedimento para que pessoas recebessem os milagres de Jesus. Você acha que as pessoas que receberam os milagres do Senhor Jesus eram fiéis e obedientes à lei? Claro que não. Você acha que elas tinham problemas conjugais, problemas com ressentimento, desejo de vingança, cobiça e lutas com tentações sexuais? Certamente elas tinham algum desses problemas. Mas isso não as impediu de receber nenhum milagre. O Senhor não exortou nenhuma delas a mudar de vida antes de receber. Também o Senhor nunca se recusou a fazer uma cura com argumento de que a pessoa merecia aquela doença. Ele nunca disse que a doença era melhor para a pessoa do que a cura.

Os pecadores sempre receberam do Senhor. Por outro lado, não temos o relato de nenhum fariseu recebendo coisa alguma do Senhor. Por que isso aconteceu? Simplesmente por causa da justiça própria. Os fariseus se achavam merecedores da bênção de Deus, pois, afinal, eles eram cumpridores da lei. Mas nós sabemos que nenhum homem jamais cumpriu a lei. As prostitutas, os coletores de impostos e todos os pecadores receberam o Senhor com alegria. Todos eles, quando tocaram no Senhor, receberam o milagre. Quando receberam do Senhor, eles não eram perfeitos, mas a imperfeição deles não foi impedimento para o milagre.

Paulo diz que aquilo que nos separa de Cristo e nos faz decair da graça é a justiça própria. Sempre que procuramos ser aceitos por Deus pela nossa performance, pela nossa obediência aos mandamentos, nós decaímos da graça. 

O irmão do filho pródigo

Quando confiamos em nossa justiça própria, nós nos separamos da graça de Deus. Somente pode desfrutar da graça aquele que reconhece que não tem merecimento algum. E aquele que reconhece que não possui merecimento nenhum também não cobra justiça e perfeição dos outros. Uma vez que foi tão generosamente perdoado, ele está pronto a perdoar os outros também. Assim, se estamos na graça, não há lugar em nós para amargura. O irmão do filho pródigo é um exemplo de como a amargura vem sobre aquele que é cheio de justiça própria. O filho mais velho estava tão longe de casa quanto seu irmão mais novo. Ele enxergava a si mesmo como um servo do seu pai e se julgava merecedor das bênçãos. Ele disse: “Eu nunca desobedeci a suas ordens”. Ele era cheio de justiça própria. Ele também precisava dizer: “Não sou digno de ser chamado teu filho”.

Mas isso era quase impensável. Ele não tinha feito nada de errado. Ele não tinha pecado contra o céu ou contra o seu pai. Ele não podia ver que não era digno de ser chamado filho de seu pai. Mas isso é exatamente o que ele precisava fazer. O irmão do filho pródigo tentou ganhar o amor do Pai sem saber que já era amado. Por não se sentir amado, ele caiu na amargura e ressentimento, pois, do seu ponto de vista, o pai era injusto (Lc 15.25-30). Esta é a maneira como surge a justiça própria, é quando tentamos conquistar o amor e o elogio do Pai. Toda pessoa cheia de justiça própria se enche de amargura, pois ela pensa que tem praticado todos os mandamentos e mesmo assim não consegue ter a bênção de Deus. A justiça própria é o resultado do nosso desejo de conquistar o amor e a aprovação de Deus.

Para ter o amor de Deus, nós nos esforçamos fazendo boas obras e, quando achamos que conseguimos, nos enchemos de justiça e merecimento próprio. O problema é que perdemos o favor de Deus quando confiamos em nossa justiça, e o resultado é que ficamos ressentidos. Esta é a explicação para a amargura em todos os relacionamentos. Se o marido se esforça para agradar a sua esposa e percebe que ela não reconhece seus méritos, ele se encherá de ressentimento se ela, por exemplo, não o elogiar e, em vez disso, elogiar o líder da célula. Sempre que procuramos conquistar o amor de Deus em vez de crer que já somos amados, caímos na justiça própria.

O exemplo de Paulo  (Fp 3.1-9)

Aqueles que andam na lei não guardam realmente todos os mandamentos, mas escolhem alguns que consideram mais importantes e, quando julgam que os cumprem, enchem-se de justiça própria. Quando temos justiça própria, nós decaímos da graça e saímos de debaixo do favor. A justiça própria é uma forma de dizer que não precisamos da obra de Cristo, que podemos ser aprovados por Deus por nossos próprios méritos. A justiça própria pode assumir muitas faces. Somos constantemente tentados pelo diabo a confiar em nossos méritos, por isso precisamos vigiar.

Cada vez que nos justificamos, perdemos a justiça que vem de Cristo. O sinal mais claro da justiça própria é quando lutamos para ter razão. Há pessoas que, não importa o argumento que se use, sempre dirão que estão com a razão, que estão certas. Se elas erraram, é porque alguém primeiro errou com elas. O motivo de procurarmos sempre ter a razão e ficarmos magoados com outros é porque pensamos que temos alguma justiça em nós mesmos.

A dificuldade de aceitar exortação é um grande sinal de justiça própria. Quando vamos exortar alguém assim, ele se armará com muitos argumentos para mostrar o quanto está certo. Pessoas cheias de justiça própria estão sempre prontas para condenar. Elas estão constantemente procurando o culpado em as situações, que evidentemente nunca são elas mesmas.

Mas o principal sinal de justiça própria é o ressentimento, o melindre e a amargura. Aqueles que se acham justos, bons e não admitem que outros errem com eles se dão o direito de guardar ressentimento e exigir a justiça. Se você exorta pessoas assim, elas admitirão que possuem falhas, mas que, de forma geral, são boas. Possuem erros, mas têm mais virtudes que falhas. Esta é a condição de muitos crentes, eles se acham parcialmente justos e bons. Mas justiça é um conceito que não aceita gradação, é sim ou não, ou somos inocentes ou culpados. Não é possível ser um pouco inocente ou parcialmente culpado. Somente podemos desfrutar do favor se chegarmos ao fim de nós mesmos e admitirmos que em nossa carne não habita nenhum. Mas esta é uma posição à qual é difícil de se chegar.

Em Cristo, não somos mais pecadores, mas precisamos reconhecer que ainda temos a carne e em nossa carne não habita bem nenhum. Precisamos rejeitar toda justiça que procede da lei, pois ela é segundo a carne (Rm 7.18). A maioria assume que tem pecado, mas dificilmente assume que em sua carne não habita nada bom. Sempre pensamos que há coisas boas em nós e por causa disso seremos abençoados.

Mas não há nada bom em nossa carne. Somente podemos ser abençoados por causa da obra de Cristo. Se confiamos em nossa justiça própria, perdemos o favor. Sempre que pensamos que somos parcialmente bons e que há algumas partes boas em nós, somos desqualificados para o favor.  Em Levítico 13, temos um exemplo muito interessante. Ali, lemos sobre a lei da lepra. A lepra poderia aparecer em várias partes do corpo; assim, se uma pessoa tivesse lepra na cabeça, era considerada impura. Se tivesse na barba, era impura. Se tivesse numa queimadura ou numa ferida, era também considerada impura. Mas se a lepra estivesse no corpo inteiro, a pessoa era declarada limpa (Lv 13.12-13).

Nós não somos a nossa carne, mas devemos reconhecer que todos nós temos a carne. Essa carne não é o nosso corpo físico, mas é algo presente em nós que é aliado do pecado. A confiança em si mesmo o retira do favor. Ninguém nascido de novo planeja o pecado. Pedro não acordou de manhã planejando negar Jesus três vezes. Ele caiu porque confiou na sua carne.

Perguntas para compartilhar:
– O que pode levá-lo a perder o favor?
-Como você pode desfrutar do favor de Deus?

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