A verdadeira transformação é sem esforço

Paulo diz, em 2 Coríntios 3.18, que precisamos ser espelhos contemplando e refletindo a glória do Senhor. Um espelho reflete tudo o que contempla. Quando estamos contemplando o Senhor, nós o refletimos.

 

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (2Co 3.18)

 

O versículo poderia ser parafraseado da seguinte maneira: “Todos nós, com o rosto desvendado, somos um espelho refletindo a glória do Senhor; e, quanto mais o refletimos, mais somos transformados na sua própria imagem refletida em nós”.

 

Para sermos transformados, precisamos ter o rosto desvendado

Paulo começa dizendo: “E todos nós, com o rosto desvendado […]”. Se você quer mudança, precisa tirar véu do rosto. Só há transformação para quem tirou o véu. Se um véu for colocado sobre o espelho, nada poderá ser refletido. Paulo diz que precisamos contemplar o Senhor com o rosto desvendado.

O que vem a ser esse véu a que Paulo se refere? Há dois tipos de véus mencionados no Novo Testamento. Hebreus 10 fala de um véu, mas ali é o véu da parte interna do Tabernáculo (Hb 9.3), enquanto o véu de 2 Coríntios 3 é o véu posto sobre o rosto de Moisés (v. 13).

O primeiro véu mencionado em Hebreus se refere ao véu que separava o Lugar Santo do Santo dos Santos. É o véu que se rasgou de alto a baixo no dia em que Jesus disse: “Está consumado”. Esse é o véu da separação. Mas não é esse o véu mencionado por Paulo. Pelo contexto, lemos, no verso 13, que Moisés punha véu sobre a face para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. Esse véu simboliza a lei do Velho Testamento. Assim, tirar o véu significa ser liberto da lei.

O que é a lei? Lei é tudo o que eu faço com o objetivo de conquistar o favor de Deus. Lei é tentar merecer o favor de Deus. Em outras palavras, na lei a bênção é de acordo com o seu esforço, é de acordo com seu merecimento. Todos os que vivem com base no merecimento ainda estão vivendo na lei. A ideia é que eu preciso cumprir todas as condições para então merecer a bênção.

Aqueles que vivem assim ainda estão com o véu sobre o rosto e por isso são incapazes de contemplar a glória de Cristo. Enquanto você está com o véu, está pensando que pode se transformar. Quem vive pela lei pensa que tudo depende dele. Tenta ser diferente na força do braço.

Você não precisa mais cumprir a lei para ser aceito diante de Deus. Ninguém jamais cumpriu a lei, pois pela lei nenhum homem jamais foi justificado. Mas hoje, na Nova Aliança, Cristo já cumpriu a lei por mim e me fez participante da sua justiça. Hoje você é justo. Não porque cumpriu a lei obedecendo a todos os mandamentos, mas porque ganhou o dom da justiça. Cristo se tornou a sua justiça. Precisamos ter revelação dessa verdade.

Para sermos transformados, precisamos contemplar o Senhor

O grande problema é que ainda somos muito distraídos pela lei do Velho Testamento e pelos profetas. Vemos os servos, mas em grande medida ignoramos o Senhor dos servos.

A Palavra de Deus diz que Jesus levou Pedro Tiago e João a um alto monte e foi transfigurado diante deles. Eles viram a glória do Senhor resplandecendo como o sol ao meio dia. Eles deveriam contemplar o Senhor, mas Elias e Moisés apareceram naquele momento. Pedro, então, sugeriu fazer três tendas, uma para Jesus, outra para Moisés e outra para Elias (Mt 17.1-8). Isso significa que eles ficaram mais encantados com Moisés e Elias do que com o Cristo em glória.

Moisés representa a lei, e Elias aponta para os profetas. Antes, porém, que Pedro terminasse de falar, o Pai disse do meio de uma nuvem luminosa: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”.

Isso significa que não precisamos mais ouvir nem Moisés e nem Elias, mas apenas Cristo. Moisés deu a lei, que mostrou o pecado do homem, e os profetas trouxeram o homem de volta para Deus, mas hoje é o tempo do Filho de Deus. Aquela nuvem brilhante era a shekinah, a mesma nuvem que veio sobre o Tabernáculo e o Templo. É interessante que, quando a lei foi dada, houve trevas e escuridão, mas agora a glória brilhante resplandece em Cristo.

 

Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. (Rm 3.20)

 

Você precisa ter clareza de que, pela lei, não vem o conhecimento da santidade, mas o conhecimento do pecado. A lei não tem poder de nos fazer santos. A justiça hoje é um dom que nos é dado à parte da lei.

Diante de Cristo, a lei e os profetas não têm mais nada a dizer. O texto diz que, quando os discípulos ouviram a voz do Pai, eles caíram de bruços, tomados de grande medo. E quando eles levantaram os olhos, a ninguém viram, senão Jesus. Moisés se foi e Elias também, eles viram somente a Jesus. Este deve ser o centro de nossa mensagem (Mt 17.8). O Pai disse que devemos ouvir somente a Jesus, e não Moisés e Elias.

 

Não somos mudados por olharmos para nós mesmos

Precisamos nos opor frontalmente ao ensino de que somos mudados quando olhamos para nós mesmos. Isso é uma mentira maligna disseminada no mundo e muitos caíram no engano de trazer a psicologia para dentro da igreja.

O diabo quer desviar a nossa atenção de Cristo e colocá-la em nós mesmos. Pensamos que, se nos olharmos, analisarmos e nos conhecermos, poderemos ser mudados, mas não é esta a verdade do evangelho, somos mudados apenas se olharmos para Cristo.

Olhar para si mesmo continuamente é chamado de introspecção. Quem vive se olhando e se analisando acredita que pode mudar a si mesmo. Mas a verdade é que a instrospecção produz apenas desânimo e condenação. Quanto mais você olha para si mesmo, menos fé tem. Quanto mais consciente você fica de si mesmo, mais sentirá condenação e angústia. Nós só podemos ter fé quando olhamos para Cristo.

Infelizmente, muitos crentes acreditam que a psicologia tem o poder de mudar o homem. De forma bem geral, podemos dizer que a psicologia ensina que você é o que é hoje porque existe algo que aconteceu no passado que ainda afeta o seu presente. Se você pudesse se lembrar, então seria mudado. Assim sendo, é necessário que seja feita uma regressão, uma terapia até lembrarmos de tudo e sermos transformados.

Tudo isso é apenas obra humana. Se a psicologia pudesse mudar o homem, o Senhor Jesus não precisava ter vindo. A máxima filosófica “conhece-te a ti mesmo” não é bíblica. Jesus disse que a vida eterna é esta: “Que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Só podemos ser mudados quando conhecemos a Cristo. Olhar para si mesmo só produz depressão e desespero em alguns e sentimento de justiça própria em outros. Psicologia é o homem tentando mudar o homem. Mas a verdadeira mudança só acontece pelo poder do evangelho. Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê (Rm 1.16). A palavra “salvar” é sozo no grego e significa não apenas ser salvo do inferno, mas também ser transformado e restaurado.

O evangelho é olhar para Cristo e ser transformado, e não viver mergulhado na introspecção olhando o tempo todo para si mesmo. A introspecção nos paralisa, pois estamos sempre nos olhando para ver se há algum pecado, se estamos na carne ou no espírito, se tudo está correto em nós, se oramos o suficiente, se estudamos o suficiente, se fizemos tudo o suficiente.

Por que muitos não conseguem avançar? Porque estão o tempo inteiro se questionando sobre si mesmos. Se eu ficar o tempo inteiro olhando para mim, não vou conseguir fazer nada. Uma das coisas mais terríveis é ficar consciente de si mesmo o tempo inteiro. Quem vive assim está sempre com a alma cansada. Mas Jesus disse que, para herdar o reino, você precisa ser como criança. A criança nunca se olha, nunca está consciente de si. Por isso, ser criança é ser sempre livre. Ela não está se olhando e se vasculhando.

Mas será que devemos ignorar quando algo está errado conosco? Claro que não. Entretanto, nem precisamos nos preocupar, pois o Espírito mesmo vai falar conosco quando algo precisar ser corrigido.  O padrão bíblico é: “Senhor, tu me sondas, tu me conheces, tu vês se há em mim algum caminho mau e guias-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23-24). Mas alguns irmãos mudaram completamente o conceito bíblico. Veja como eles confessam o versículo. “Eu me sondo, eu me conheço, eu vejo se há em mim algum caminho mau, eu me guio pelo caminho eterno”. Eles desvirtuam a Palavra de Deus para o seu próprio sofrimento.

Mas a Palavra de Deus não diz que devemos examinar-nos a nós mesmos antes de participar da ceia? Sem dúvida, 1 Corintios 11.28 diz: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice”. Todavia, para entender esse “examine-se a si mesmo”, você precisa entender o contexto. Os irmãos da igreja de Corinto tinham um problema, eles ficavam bêbados no dia da ceia. Consegue imaginar algo assim? Paulo, então, lhes diz nos versos 26 e 27:

 

Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. (1Co 11.26-27)

 

O que significa a expressão “indignamente”? É um advérbio de modo, é a maneira como se faz algo. Não é a pessoa que é indigna, é a maneira como ela está agindo. Paulo não disse que eles deveriam observar se eram dignos de participar da ceia. Ele disse que deveriam avaliar se estavam fazendo de uma maneira reverente e correta.

Mas nós interpretamos mal o versículo e transformamos o dia da ceia em uma reunião de introspecção. O pastor pega o pão e o cálice e pergunta aos irmãos: “Será que você é digno de comer deste pão e beber este cálice?” Qualquer pessoa minimamente honesta reconhecerá que não é digna de participar da mesa do Senhor. Mas é óbvio que ninguém é digno, não há um sequer que seja digno. A Bíblia diz que não se achou nos céus, nem na terra e nem debaixo da terra alguém digno. João chorava, mas o ancião falou: “Não chore, porque o Cordeiro, o Leão da Tribo de Judá venceu e Ele vai abrir o livro, porque Ele é digno. Só ele é digno” (Ap 5.1-5). Esse desejo de merecer a benção é viver na lei do Velho Testamento. A introspecção mata, por isso a ceia é dia de morte para muitos.

 

Contemplar é ficar deslumbrado

Como cristãos, precisamos ser como turistas loucos para ver a mais bela paisagem. Outro dia, fui ao Grand Canyon. Precisei me esforçar para chegar lá. Paguei por uma vã, depois paguei por um helicóptero para chegar até o lugar e ficar extasiado com a paisagem. Mas, diante daquela paisagem, o guia me disse: “Este ainda não é o melhor lugar. Há um ponto ainda mais extraordinário. Mas é muito difícil chegar até lá”.

Eu estava disposto a pagar para chegar até aquele ponto. Precisamos ser como turistas loucos para ver o Senhor. Quando achamos que já vimos algo, ansiamos loucamente por mais. Não importa o preço, não importa a dificuldade, eu quero vê-lo. Contemplar é algo que não exige esforço humano. Eu preciso apenas me disciplinar para não ser distraído por outras coisas enquanto estou contemplando.

Na Nova Aliança, não somos mudados pelo nosso esforço, mas apenas por olhar para Jesus. Quando as pessoas o contemplam, elas são transformadas. E somos transformados de glória em glória. Nós podemos crescer nessa glória, basta que tenhamos os olhos abertos para contemplar o Senhor.

A glória é a própria imagem do Senhor. Na Nova Aliança, você não é transformado pelo seu esforço, nem pelo quanto se empenhou em cumprir a lei. Na Nova Aliança, você é transformado sem esforço, é algo que acontece de forma espontânea pelo poder de Deus. Tudo o que temos de fazer é contemplar, ficar embevecido, deslumbrado, embasbacado diante da formosura do Senhor. Se você contempla o Senhor da glória, algo da sua glória é transmitido a você. É um pouco de glória hoje, outro tanto amanhã, até que sejamos completamente tomados pela plenitude de Deus.

Em Marcos 4, Jesus disse:

 

O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. A terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga (Mc 4.26-28).

 

A terra é o seu coração, e a semente é a palavra de Deus. A sua parte é só plantar, dormir e acordar, dormir e acordar, até que a semente da palavra germine para a vida eterna. Basta apenas ser semeado, pois não é o seu esforço que vai produzir mudança. Ninguém vai se gloriar diante de Deus naquele dia, dizendo: “Eu me esforcei, trabalhei muito e me disciplinei, por isso fui transformado. Ninguém poderá dizer isso. O testemunho de todo salvo será completamente diferente, pois dirá: “Eu nem sei como aconteceu. Eu acordei e estava diferente!” Este é o cristianismo do Novo Testamento, não é fruto seu, é fruto do Espírito de Deus. Não é obra sua, é obra do poder de Deus. Não é você que faz, é Ele que vai realizar.

 

Perguntas para compartilhar:

– O que significa a expressão “indignamente”?

– O que é a lei?

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