A Grande Reforma no Século XVI

por Marcelo Almeida – pastor presidente da VINHA

A Reforma inaugurou uma nova era para o cristianismo, abrindo as portas para uma fase de evangelismo mundial sem precedentes na história humana. Os discípulos de Jesus Cristo, confinados anteriormente apenas no continente europeu, passam a evangelizar todos os demais continentes. Uma maciça migração faz povoar as Américas com colonos vindos de praticamente todos os países da Europa. Portugueses, espanhóis, franceses e ingleses vêm estabelecer as bases para uma enorme comunidade de nações cristãs.

Missionários protestantes serão futuramente enviados para a Ásia, África e Oceania. Os jesuítas católicos penetram decisivamente na América do Sul, evangelizando os nativos, e são eles mesmos os primeiros missionários a alcançar a Índia, China e o longínquo Japão no Extremo Oriente.

A Reforma também estabelece as bases que fundamentam a busca pessoal pela presença de Deus. O ensino de cada crente seguindo a sua própria consciência e com acesso direto às Escrituras Sagradas fomenta novas comunidades de crentes que sacudirão aquele velho e hermético cristianismo. Daqui, surgirão os quakers, os hungenotes, os metodistas, os menonitas, os batistas e os Irmãos Morávios, que serão os pioneiros e os pais das missões modernas nos séculos seguintes.

O Espírito Santo estava decisivamente movendo-se e operando poderosamente através do seu corpo. Avivamentos estão destinados a sacudir países inteiros, milhões de pessoas se converterão e o cristianismo se tornará a religião majoritária pelos séculos que virão. Uma contingência histórica provoca a centralização e o monopólio do bispo e da igreja de Roma. Agora, por outra contingência histórica, o Espírito Santo estabelecerá uma vez mais seus apóstolos, profetas e pastores pelos quatro cantos do planeta a fim de cumprir-se a profecia de Jesus: “E este evangelho do reino será pregado a todas as nações e então virá o fim”. Eu e você fomos chamados por Deus para isso.

 

Martinho Lutero nasceu em Eisleben, na Saxônia, na época, um dos principados nos quais era dividida a Alemanha, em 10 de novembro de 1483. Filho de uma família modesta, seu pai, João Lutero, era mineiro, e sua mãe, Margarete Ziegler, era também de família humilde. Seu pai se esforçou sobremaneira para dar ao filho a melhor educação possível já que não havia muito o que legar ao filho em matéria de heranças e posses. Enviaram-no a Magdeburgo e depois a Eisenach, onde frequentou a Faculdade de Filosofia e depois de Direito. Na biblioteca da universidade, Lutero encontra uma Bíblia em latim e passa a ler o texto sagrado com devoção. Seu coração torna-se cada vez mais inquieto no tocante à espiritualidade e à salvação eterna. Era corrente o ensino da igreja de que o melhor caminho para se encontrar a salvação seria dedicando-se a uma vida piedosa em algum monastério. Portanto, a percepção de salvação baseada no mérito trazia à consciência de Lutero uma profunda inquietação. Era esse ambiente medieval de um Deus rigoroso que salva os bons que merecem e condena os maus ao inferno que Lutero experimentava.

Durante seu tempo na universidade, numa visita à casa dos pais em período de férias, Lutero tem uma experiência aterradora: sua carruagem que viajava numa noite de intenso temporal quase é atingida por um raio. Ali mesmo, entendendo que era Deus a requerer dele a entrada para a vida monástica, promete a Santa Ana que se faria um noviço. Pouco tempo depois, já na época da sua formatura como advogado, uma pequena espada, presente de formatura, cai-lhe ao pé, cortando uma artéria. Diante da hemorragia que poderia lhe causar a morte, sentindo-se perdido e sem a posse da salvação, Lutero rende-se àquele “Deus, e juiz implacável”, que o ameaçava com a perdição eterna. Sob o veemente protesto do seu pai, o jovem interrompe qualquer carreira secular ali mesmo e entra para a Ordem dos Monges Agostinianos. Esta era considerada uma das ordens monásticas mais rigorosas e disciplinadas que praticavam o mais ardoroso ascetismo religioso.

Na sua rotina entre os agostinianos, Lutero aproxima-se muito do Prior dos monastérios da Saxônia, Johann von Staupitz. Este era um homem espiritual e conhecedor da graça divina, o qual se torna a principal influência espiritual na vida e ministério de Lutero. É ele quem insiste que o monge tão obstinado por merecer a salvação deveria entregar-se sem reservas a Deus para experimentar a paz da salvação por meio de uma fé simples. Lutero não estava preparado para algo assim aparentemente tão primário e continuou por anos praticando o mais rigoroso ascetismo em busca de achegar-se e ser aceito por Deus com base nos seus próprios méritos. Saía com frequência descalço mesmo no inverno para pedir esmolas em atitude mendicante, praticava frequentes jejuns e dormia numa cama de pedra fria como forma de golpear o corpo. Era corrente nessa mentalidade medieval católica que sofrimentos agregam merecimento. Assim, era comum à prática monástica infligir a si mesmo dor, golpes e sofrimento. A terrível mensagem subliminar disso é que “Deus teria algum prazer no sofrimento dos seus filhos”. Assim, em suas práticas devocionais severas, Lutero dedicava-se à oração profunda e sincera, mas também a todos os atos de ascetismo rigoroso. Entretanto, frequentemente ele confessava o que para ele era um dos seus maiores pecados: ele fazia tudo aquilo sem amar a Deus por ver n’Ele apenas um juiz implacável e pronto para castigar duramente os seus filhos. Tudo o que Lutero fazia, portanto, era para aplacar a ira da justiça de Deus, não porque o amasse.

A cidade de Roma, a “cidade eterna”, era o principal centro de influência cristã daquela época. Nenhuma cidade chegava próximo àquilo que Roma representava para toda a cristandade. Em 1511, seis anos, portanto, antes daquele memorável 31 de outubro, Lutero fora enviado à “Sé Romana” com outro frade para tratar de questões administrativas relativas à Ordem Agostiniana. Aquele seria um momento de grande significado para aquele cristão devoto cheio de expectativas. Para sua missão a Roma, lhe fora dado dez florins de ouro para pagar suas despesas, e este, juntamente com o seu companheiro de jornada, deveria ir se hospedando nos monastérios a caminho de Roma.

À medida que prosseguia, porém, Lutero ia se incomodando com a vida luxuosa em alguns Monastérios em contraste com a imensa pobreza do povo, a frouxidão moral dos monges e a completa falta de interesse pelas questões genuinamente espirituais. Mesmo se desencantando progressivamente com os companheiros de vida monástica, Lutero ainda nutria uma sincera e piedosa expectativa pela chegada à “cidade de São Pedro”. Finalmente, quando avistam, de uma colina, a cúpula da Sé papal, ele teria exclamado: “Salve Santa Roma!” Numa de suas escadarias considerada sagrada, havia a garantia de indulgência àqueles que a subissem de joelhos. Assim, o monge alemão percorre toda Roma na sua sinceridade visitando cada lugar sagrado da cidade e ali fazendo orações fervorosas. Entretanto, quanto mais Lutero conhecia a cidade no período de um mês que ali permaneceu, mais se encontrava com a realidade degradada de decadência moral dos religiosos em geral.

Para ajudar Martinho Lutero em suas buscas, Staupitz o envia para estudar e, após, graduar-se em Teologia. O jovem e agitado monge, brilhante Agostiniano se lança ao estudo das Sagradas Escrituras a fim de apaziguar sua alma perturbada e confusa com a percepção da justiça de Deus e sua própria incapacidade de satisfazê-la. Para satisfazer a justiça divina, cujo padrão é altíssimo, como seria possível obter a segurança de que fizemos o suficiente? E se o fizemos, a glória é toda nossa, e não de Deus.

Em 1508, Staupitz sugere ao príncipe Frederico da Saxônia, que abrira uma universidade em Wittenberg, que este convide Lutero para tornar-se professor e pároco da igreja. Ele vê que esta oportunidade a ser dada ao seu discípulo muito contribuiria para o progresso espiritual do inquieto monge. Martinho Lutero deixa, então, o convívio dos monges e muda-se definitivamente para Wittenberg para ensinar Filosofia e Teologia. Finalmente, em 1512, Lutero conclui sua pós-graduação, tornando-se Doutor em Teologia. Nesses seus anos atormentados, na sua luta em torno das coisas concernentes à salvação de sua própria alma, enquanto analisava profundamente o texto da Epístola aos Romanos, a paz de Deus veio ao jovem Martinho. Através do estudo de Paulo, Agostinho e William de Ocam, ele pode ver mais claramente que era através da fé em Cristo apenas, e não pelas suas próprias obras e mérito, que receberia a salvação. A retidão será encontrada apenas em Jesus Cristo, que atribui essa “justiça imputada” para sempre ao homem que simplesmente crê.

O atormentado e sincero monge finalmente encontra a mais absoluta paz e certeza de sua salvação na afirmação de Romanos: “A justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito, o justo viverá pela fé” (Rm 1.17).

Suas conclusões teológicas retornaram diretamente aos escritos de Paulo. Se o justo viverá pela fé, toda a salvação será operada unicamente pela obra e mérito de Jesus Cristo e sua obra redentora. Deus se dá por satisfeito com esse plano perfeito de redenção engendrado por Ele mesmo. Assim, não haverá mais obra imperfeita e humana, sacrifício algum a ser exigido como “complemento” àquele sacrifício. Aqui já caíram por terra várias doutrinas e práticas acrescentadas pela tradição pagã. Não há mais nada a ser feito! Nada mais a não ser aceitar alegremente por pura graça esse dom maravilhoso oferecido por Deus! Lutero finalmente encontra-se com o Deus de amor, da misericórdia e da graça. O Deus que ao mesmo tempo é justo e, para satisfazer sua perfeita justiça, oferece a si mesmo como sacrifício num amor desmedido, incondicional e perfeito pelo homem.

Para Lutero, agora sensível à imerecida graça de Jesus Cristo pela qual os homens são livremente perdoados de seus pecados, essa prática profana e blasfema de venda de remissão dos pecados deveria ser extirpada da igreja. Diante da “pregação” de Tetzel, Lutero é tomado de zelo pelas suas ovelhas. Além de pregar em sua paróquia contra tal prática, ele, de acordo com a etiqueta acadêmica, propõe também um debate na universidade. Redige e publica afixando 95  artigos referentes ao comércio de indulgências na porta da igreja da Universidade de Wittenberg no Dia de Todos os Santos. Era 31 de outubro de 1517. Além disso, como de costume, uma cópia fora enviada ao Arcebispo de Mainz. Após a enorme controvérsia e clamor público causado inesperadamente pelas tais teses, ele as remete diretamente a Roma.

A publicação das teses em latim obedecia à prática acadêmica de se propor um debate acerca de determinado assunto. Era essa a atitude quando algum mestre desejava debater algum tema na universidade. Lutero, portanto, publica suas teses na língua dos acadêmicos, restrita ao ambiente universitário e litúrgico. O que deveria, entretanto, ser um debate restrito na pequenina cidade de Wittenberg alastra-se como fogo. As teses foram copiadas e traduzidas para a língua alemã e dezenas de milhares de cópias das teses passam a circular com a ajuda da imprensa por todo o país. Em semanas, as teses foram traduzidas para outras línguas e, em alguns meses, toda a Europa lia, debatia e se posicionava acerca dos 95 artigos propostos por Lutero. Na Alemanha, naquela noite de Todos os Santos, uma centelha foi acesa que inflamaria toda a Europa com uma poderosa reforma nas práticas da igreja, suas doutrinas, sua tradição, sua liturgia e estrutura de autoridade e governo. Nações inteiras seriam libertas do jugo da superstição num retorno vivo e apaixonado à pureza e prática apostólica.

© 2017 Igreja Videira. Todos os direitos reservados | Desenvolvido por Alisson Martins